-
"há um esboço de revolução, vem a contra-revolução que reprime e extrai algumas poucas teses do movimento inovador e as aplica a seu modo, conciliando e esvaziando o conteúdo histórico", José Honório Rodrigues, apud Carlos Guilherme Mota.
Segundo foi estabelecido nas efemérides paraenses, no dia 15 de agosto do corrente se completariam 187 anos em o Grão-Pará deixou de ser província de Portugal e passou a ser a Amazônia brasileira. Mas, o fato corresponde à verdade histórica? Persiste controvérsia sobre a data e circunstâncias da verdadeira Adesão do Pará à independência do Brasil, no ano de 1823, quando a colônia portuguesa se integrou ao Império brasileiro. Do ponto de vista da resistência anticolonial paraense, o movimento de 14 de abril pró-Independência pronunciou-se claramente nas ruas da Capital (restando nos nomes de rua no bairro do Umarizal) e proclamou soberanamente, com a formalidade necessária, a adesão no dia 28 de maio, na vila de Muaná (onde existe monumento e praça pública alusiva à data com o nome dos heróis), na ilha do Marajó: o que aconteceu posteriormente foi a brutal repressão colonialista ao povo paraense com mortos, feridos e condenados à morte sendo deportados para o cárcere de São Julião (Portugal). Enquanto isto, no Maranhão, o almirante Cochrane com frota mercenária contratada por dom Pedro I, Maranhão despachava o tenente John Pascoe Greenfell ao Pará, com fingimento, dar ultimato à guarnição militar fiel ao regime de Lisboa.
Que fez, então, em Belém do Pará o agente imperial inglês? Em vez de logo contatar os nacionalistas e lhes oferecer garantias à Adesão paraense já manifestada em 14 de abril e proclamada pelas lideranças do povo em 28 de maio, como era de esperar, e com estes ao lado forçar rápida capitulação portuguesa, foi o mercenário sem delongas ameaçar de bombardeio a Cidade. Em seguida ele parlamentou com o governo colonial e ao cabo da confabulação saiu o vergonhoso ato de “adesão” de 15 de agosto de 1823... A Data-Magna e feriado estadual dos paraenses desmemoriados.
Na realidade, arrancado debaixo de canhões e baionetas alugadas a dom Pedro I, o acordo anglo-português de falsa capitulação e rendição das forças coloniais portuguesas no Pará abafa e tira de cena a luta independentista do povo paraense coerente com sua antiga história em sempre pertencer a velha terra dos Tapuias ao grande país do Cruzeiro do Sul (conhecido outrora pelos índios da Amazônia como o Arapari). Assim, com astúcia de parte a parte em prejuízo do povo, velhos coloniais foram mantidos no governo sob o novo pendão imperial à sombra tutelar da Inglaterra. Ora, o reino de Portugal e o Reino Unido tem longa tradição de aliança e, curiosamente, nosso primeiro imperador era príncipe herdeiro do trono português (depois de renunciar ao trono brasileiro dom Pedro I do Brasil foi ser Pedro IV de Portugal). Todavia, a repressão aos nacionalistas paraenses não cessou, desde então reforçada pelos mercenários ingleses a proteger o antigo regime colonial travestido em brasileiro. Eis o simulacro desta “adesão” pra inglês ver... Até a partida da tropa de Greenfell, quando os nacionalistas derrubaram o governo portuguesista e o agente de Cochrane voltou à cena furioso, a cometer barbaridades contra o governo do povo, humilhando o líder paraense cônego Batista Campos amarrado a um canhão com morrão aceso, fuzilando aleatoriamente a uns e outros até terminar pelo frio assassinato de 252 patriotas nos porões do brigue “Palhaço”, a fim de impor terror à população. Uma vergonha nacional para ser considerada Data-Magna a causa de tamanhas arbitrariedades! Desde então, uma série de perseguições e crimes em nome do governo do Império levando à agitação e paroxismo popular (objeto de estudo do Barão de Guajará, cujo solar é sede do Instituto Histórico e Geográfico do Pará (IHGP); dos célebres “Motins Políticos” que levaram à convulsão popular da Cabanagem). Certo, em 12 anos – de 15 de agosto de 1823 a 14 de agosto de 1835 – o Pará velho de guerra pegou fogo e o povo assumiu o poder em armas (1835-1836). Historiadores conservadores escondem os crimes do Império no genocídio dos cabanos (30 mil mortos numa população de, aproximadamente, 100 mil habitantes) sob falsa acusação de separatismo: na verdade, ao contrário, uma longa luta popular para a brava gente do norte ser brasileira de parte inteira.
A míngua acadêmica
A míngua de interesse acadêmico sobre questões como esta dificulta revisão da historiografia petrificada em compêndios oficiais, mas revela permanência da ideologia neocolonial que animou a criação do respeitável Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB) sob mecenato de dom Pedro II. Contudo, sem renegar o contributo do IHGB e seus congêneres nas províncias do Império na formação da história da História do Brasil. Mas, ultimamente, vem prosperando contracorrente a partir de Capistrano de Abreu, o primeiro historiador que deu importância a elementos populares menos elitistas descrevendo a história socioeconômica do Brasil.
A novidade historiográfica implica na real inclusão de índios, negros, mestiços, cristãos-novos, moçárabes, missionários e aventureiros antes marginalizados nos principais acontecimentos que levaram à invenção do Brasil e da Amazônia. As duas colônias portuguesas nas Índias Ocidentais nascidas sob os termos do Tratado de Tordesilhas (1494-1750) e o mito do espaço vazio; ainda escondem evidências da civilização neotropical pré-colombiana.
O mito das “amazonas” apagou a existência de milhões de amazônidas e extingui milhares de línguas e culturas diferentes do “rio Babel” (Amazonas). Sonho sebastianista de conquista de corações e mentes selvagens pelo visionário padre jesuíta Antônio Vieira, a fim de edificar desde as bases ultramarinas o “Quinto Império do Mundo” – messianismo marrano que levaria o payaçu dos índios a se aproximar do rabino português de Amsterdã, Menasseh ben Israel; com a famosa teoria segundo a qual índios americanos descendem de judeus do Cativeiro da Babilônia, as Tribos Perdidas; e a ser condenado pelo Santo Ofício por heresia judaizante – ; debaixo do domínio espiritual do Bispo de Roma e soberania territorial do rei de Portugal.
Não viu o padre grande, todavia, grande crítico da cegueira de colonos e cortesões, que sua utopia evangelizadora (filha da cultura apocalíptica ocidental) caia como luva à mitologia de seus índios protegidos que ele buscava “resgatar” em rios distantes a catequizar para maior glória de Deus e grandeza material do reino de Portugal mediante arriscada conversão e investimento econômico dos judeus. Operação político-teológica que, supostamente, apressaria o parto do reino de Cristo na terra revelado no livro do Apocalipse.
Antônio Vieira, pois, sem a controvertida missão do Grão-Pará (1652-1661), a famosa lábia e seus notáveis delírios retóricos fazendo dele o elogiado “imperador da língua portuguesa” (segundo o poeta Fernando Pessoa), a criticar o barroquismo europeu decadente pelo emergente barroco latino-americano nos famosos Sermões; por certo, não seria ele o Padre Vieira que se conhece. Seus nove anos como missionário na Amazônia se não o qualificam para ensinar como escrever História do Brasil (como os dez meses apenas do naturalista von Martius a palmilhar a região amazônica, desconhecida na corte do Rio de Janeiro, credenciaram o nobre alemão junto ao IHGB), pelo menos o payaçu dos índios deveria ser mais consultado a respeito da história indígena brasileira dos tempos de ruptura da incontornável “linha” de Tordesilhas. Ou seja, sem o inverossímil acordo do padre grande e os sete caciques da ilha do Marajó (27/08/1659) custa crer que o esperanto jesuítico chamado Nheengatu ultrapassasse as ilhas do Pará para dentro do Amazonas, servindo de ponte à língua de Camões rio acima
A dialética das aldeias das missões foi o grão Pará revolucionário a longo termo. Ao se observar a germinação da semente catequista em chão tapuia e o crescimento da safra pode-se ver o peso da força bruta dos cabanos em gestação nos antigos acontecimentos pertencentes à história oral raramente transcrita e bem compreendida na poeirenta crônica colonial. Origem secular do papel precursor do cônego Batista Campos como caudilho da Cabanagem e fecundação eclesial de base da chamada teologia latino-americana da Libertação.
Ao contrário dos europeus, o Bom Selvagem não buscava o paraíso perdido; mas achar o país do futuro, dito Yby Marãey (terra sem mal) profetizada por caraíbas praticantes da bárbara eucaristia antropofágica. Afinal de contas, o evangelho jesuítico não livrou a religião dos índios da diabolização imposta pelo mau juízo e ignorância dos frades capuchinhos da França Equinocial, porém os pajés-açus souberam assimilar a religião do colonizar e inventar com ela o catolicismo popular onde coexistiram deuses africanos, santos da igreja e santidades indígenas. Desde então, a biodiversidade ficou sendo irmã da diversidade cultural brasílica.
A revisão historiográfica há de saber, fundamentalmente, se de fato menos de uma centena de portugueses e mamelucos de Pernambuco sob pavilhão da União Ibérica foram bastantes para conquistar o populoso e selvagem “rio das amazonas”, um novo Nilo em nascimento no novo continente. Ou, pelo contrário, se foram muitas vezes astutos caciques e caraíbas que atraíram aventureiros e corsários estrangeiros para suas causas na ambição natural de obter aliados dotados de armas de fogo e grandes navios à vela até solução final do conflito de fundo étnico o mais antigo da região. Dados coloniais e pesquisas antropológicas demonstram que povos indígenas tapuias (não-tupis) das Ilhas e do Amapá ansiavam por se estabelecerem na margem meridional do rio Pará e que, por outra parte, invasores tupinambás vindos através do Nordeste guerreando contra os tapuias em busca da mítica “terra sem mal” pelejavam intensamente pela posse do vasto território ribeirinho, portal da Amazônia.
A gente da terra Tapuia (Amapá e Pará) praticava guerra de guerrilhas, à moda Aruak naturalmente, com zarabatana e flechas envenenadas contra os invasores, por este fato bélico ficou célebre na tradição oral tupinambá o índio inimigo de emboscada (marãyu / marajó, homem “malvado”), herói inimigo invejado que produzia terror e ódio ao bravo guerreiro conquistador da Amazônia. Hoje historiadores com auxílio de recentes pesquisas sobre arqueologia e antropologia amazônicas do período pré-colonial podem verificar que é insustentável a tese da conquista portuguesa, com tão parcos recursos próprios, se não contasse com a aliança indispensável do Bom Selvagem. Eis o paradoxo amazônico: sem índios e sem mitos a história seria outra!
Sem desmerecer o papel do soldado português, é lógico que os portugueses colonizaram a Amazônia, a partir de 1640, com a restauração da independência de Portugal. Mas a conquista foi indígena e mais sangrenta do que parece. Sem arcos tupis e remos tapuias a manutenção do território seria impossível, cuja pacificação impossível pelas armas acabou sendo promovida pela atuação, à beira da loucura, de missionários movidos pela fé e sertanistas façanhudos seduzidos pela descoberta de ouro.
A realidade histórica até a segunda metade do século XVII que a Cidade do Pará (Belém) contava apenas com algo em torno de 80 “habitantes” (portugueses), fora os padres, escravos (indígenas cativos) e índios. Ou seja, multidão de diversas nações indígenas livres, em guerra permanente entre si ou ao lado de aliados estrangeiros também estes em luta com seus concorrentes europeus pela posse do território. A “linha” de Tordesilhas não permitia a Portugal ultrapassar a baía do Marajó: mas, debaixo da bandeira da União Ibérica, o capitão Pedro Teixeira representando as armas de Portugal partiu de Belém do Pará (1637) e retornou (1639) de sua célebre viagem a Quito (Equador) plantando marco na futura fronteira do Brasil com o Peru e Colômbia. Só? Não. Pedro Teixeira e seus oficiais e soldados foram levados e trazidos por 1.200 animosos índios tupinambás, os quais apenas refeitos do massacre que sofreram em mãos dos portugueses, entre outros o próprio Teixeira; em represália ao levante indígena de 1619, liderado no Maranhão pelo cacique Pacamão e no Pará por Guaimiaba (Cabelo de Velha); não se furtaram a lutar ao lado dos antigos inimigos Perós (lusos) pelos quais haviam abandonado os amigos Mair (franceses).
O que sucedeu, então? Que foi preciso esperar o início do século XX para começar a compreender a saga do Bom Selvagem (Curt Nimuendaju, São Paulo, 1920). Conservar a lógica da historiografia colonial, na História do Brasil, não tem futuro. A verdade histórica (grosso modo) é que foi o índio que deu o território, o negro enraizou a cultura e o português inventou o estado brasileiro, todos estes elementos juntos inventaram o Brasil e integraram a Amazônia, desde a ruptura da União Ibérica (1640): de modo que a Adesão do Pará, em 1823, foi precedida de 164 anos desde o fim da guerra hereditária entre tupis e nheengaíbas, em 1659, conjuntamente às pazes entre portugueses e os mesmos nheengaíbas através dos sete caciques ( Anajás, Aruãs, Cambocas, Guaianás, Mamaianás, Mapuás e Pixi-Pixi).
Mas, os historiadores da Amazônia não viram ainda, exatamente, que a missa relatada pela inventiva do payaçu Vieira, na improvisada igreja do Santo Cristo, ocorrida há mais de 350 anos na atual reserva extrativista florestal de Mapuá; ato solene – inventado ou real –, que esconde algo mais que a simples suspensão das hostilidades dos índios das ilhas contra colonizadores do Grão-Pará. Foi, na verdade, confirmado pelos fatos uma trégua extraordinária entre as duas poderosas etnias indígenas do delta-estuário. Sem estas pazes do rio dos Mapuá não poderiam os jesuítas estabelecer as aldeias de Aricará (Melgaço) e Arucaru (Portel) e começar a catequese dos temidos marajoaras, levados para a margem direita do rio onde eles estavam ou desejavam estar desde o começo do conflito com os invasores tupinambás descidos do Tocantins. Sem esta providência preliminar, com certeza, não se poderia conservar o Pará nem explorar o Amazonas e seus tributários. A expedição de Pedro Teixeira não seria diferente, para efeito prático do uti possidetis do Tratado de Madri (1750) que revogou Tordesilhas; da frustrada tentativa castelhana através do infeliz capitão Francisco de Orellana, de colonizar Nueva Andaluzia (Amapá e Baixo Amazonas).
Mas, a historiografia colonial, desconhecendo o empolgante mito tupinambá e sua cultura guerreira; quer fazer acreditar que o milagre de Santo Antônio permitiu aos frades do convento do Una levar na conversa um milheiro de índios encapetados pelo espírito Jurupari contra protestantes holandeses e britânicos fortificados no Xingu, Gurupá e Amapá com seus camaradas nheengaíbas (Aruaques insulanos). Assim, de fato, rompeu-se a “linha” de Tordesilhas que dava as ilhas do Marajó, Amapá e o Amazonas inteiro a Espanha. Mas, a antropologia diz que a religião dos tupinambás é a vingança e que a guerra era para essa gente leit motif da conquista do paraíso selvagem: aquela cobiçada terra mágica onde acreditavam não haver fome, trabalho escravo, doenças, velhice e morte...
Então, os caraíbas provavelmente tiveram que se unir ao odiado português com suas armas de fogo e caravelões, para vencer a resistência do inimigo hereditário falante da “língua ruim” (nheengaíba, na verdade diversas línguas de tronco aruaque)//
Na Amazônia, quando a história claudica a geografia explica. Para a pesquisa histórica não podem as precárias fontes dos primeiros séculos de colonização prevalecer “ad eternum” sobre o desenvolvimento dos recursos modernos que já se dispõe. Sobretudo, o avanço da democracia e dos direitos humanos que exige inclusão social das populações tradicionais marginalizadas pelo colonialismo deve começar pela recuperação da memória e do papel histórico dos antigos senhores das regiões amazônica. Sabemos que assim como as mulheres em geral não dispunham de direitos de cidadania plena; os índios e os negros foram confinados no limbo da História pela a Igreja e o Estado colonial no antigo pacto entre o trono e o altar.
"Como se deve escrever a história do Brasil"
A Cabanagem (1835-1840) foi a guerra civil amazônica ocorrida na primeira metade do século XIX, periferia da revolução industrial, levada a efeito pelas “classes infames” da população. Depois que a calma voltou a Amazônia, o naturalista bávaro Karl Friedrich Philipp von Martius (1794-1868) chegou a Belém do Pará e subiu o rio Amazonas coletando espécimes botânicos durante dez meses até Santarém, donde voltou para a Europa depois de três anos pesquisando a flora brasileira subsidiado pelo rei da Baviera, Luis I e o imperador dom Pedro II.
Martius inverteu o mito do bom selvagem, e le acreditava que os índios eram remanescentes degenerados de povos "superiores", que haviam construído cidades, monumentos e códigos "evoluídos". Suas críticas à crença no bom selvagem foram diretas, dizendo ele:
“Ainda não há muito tempo era opinião geralmente adotada que os indígenas da América foram homens diretamente emanados da mão do Criador. (…) Enfeitado com as cores de uma filantropia e filosofia enganadora, consideravam este estado como primitivo do homem: procuravam explicá-lo, e dele derivavam os mais singulares princípios para o Direito Público, a Religião e a História. Investigações mais aprofundadas, porém, provaram ao homem desprevenido que aqui não se trata do estado primitivo do homem, e que pelo contrário o triste e penível (sic) quadro que nos oferece o atual indígena brasileiro, não é senão o residuum de uma muito antiga, posto que perdida história.”
As ideias e preconceitos de von Martius são fruto do século XIX, época da eugenia do mundo civilizado. Desde o período colonial acham-se “histórias do Brasil” que são relatos de funcionários, missionários e viajantes com registros de fatos e observações sobre a vida e costumes dos habitantes do Brasil, entre os séculos XVI e XVIII. A preocupação com uma história nacional começa na Regência do II Império, a partir da criação do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB), em 1838, projeto de uma história do Brasil em um momento que a classe dirigente buscava consolidar o estado imperial.
O IHGB organizou premiação para o melhor modo de escrever a História do Brasil. O ganhador do concurso foi von Martius, em contato com a disciplina histórica na Europa, particularmente na Alemanha; propondo uma história ao mesmo tempo filosófica e pragmática centrada na formação do povo, incluindo nesta a "mescla das raças" brasileiras. A monografia de von Martius "Como se deve escrever a história do Brasil" expressou preocupação com a ideia de um passado nacional, comum a todos brasileiros, tendo início com o surgimento político do Brasil independente. Quer dizer, o “passado nacional” nestes termos não chegaria nem mesmo ao descobrimento de 1500.
De volta para o futuro da pátria amada
Hoje se sabe que é o presente que explica o passado, não o contrário. Os mortos não governam os vivos como os positivistas diziam, mas os vivos sepultam ou ressuscitam mortos para inventar o futuro: o sebastianismo ensina... Há 10 mil anos migrações asiáticas chegaram a Amazônia povoando o território com diversos grupos paleolíticos. Os quais, pouco a pouco, foram adaptando-se ao ambiente neotropical e diferenciando-se de acordo com o habitat. No processo amazônico de antropização surgiu na ilha do Marajó, cerca do ano 400 DC, a primeira cultura complexa (sociedade de classes) da Amazônia: a Cultura Marajoara. Por que este fato histórico – passagem do estado natural humano para cultura complexa – aconteceu primeiramente na foz e não no médio ou alto rio Amazonas? O bioma fluviomarinho explica aqui e agora (com concurso da ciência) o que aconteceu no passado e o que pode acontecer no amanhã.
A lei nº 5.999, de 10/09/1996, aprovada por deputados estaduais do denominado Palácio Cabanagem e sancionada festivamente pelo governador do Estado do Pará considera o dia 15 de agosto a Data-Magna de Adesão da Província do Grão-Pará à Independência do Brasil declarando este abençoado dia o maior feriado estadual: bom para trabalhador paraense (descendente de cabanos e antigos cativos da Casa das Canoas arrancados das aldeias de altos rios para faxina ordinária da Cidade e conquista dos sertões amazônicos) ficar no lar doce lar a folgar ou ir ao bar bebericar, bater bola em campinho de futebol, ver show de calouro na TV etecetera e tal. Afinal de contas, como diria o poeta Ascenso Ferreira, pernas para o ar! Ninguém é de ferro... Nem besta de carga a ponto de perder feriado e curtir o sacrossanto direito à preguiça em vez de se matar a troco de um salário de fome e fazer fortuna à folgada família do patrão. Noves fora a luta de classes, renegada em nome da boa harmonia entre capital e trabalho; às vezes atrapalhada pela maldita greve em rude ambição de arranjar mais uns trocados no fim de cada mês.
O mundo não havia resolvido a crucial questão do colonialismo até hoje mal resolvida ou porque não a resolveu a tempo, estourou o desastre de duas grandes guerras mundiais uma no rabo da outra deixando no rastro o Holocausto e a hecatombe atômica sem muita folga para respirar e dar começo ao grande surto de paranoia da Guerra Fria. As multidões embaladas por cantos de sereia da felicidade mediante pagamento a prazo e cartão de crédito a perder de vista até a morte do freguês abortam a realidade a troco de ópio e farsa da história. Somente a II Guerra Mundial matou 60 milhões de pessoas e pouca gente se importa com o absurdo civilizado inigualável por quaisquer povos bárbaros ou espécie de animal selvagem. Montanhas de livros, florestas transformadas em páginas de papel, rios de tinta para contar a maior história da insanidade humana de todos os tempos.
Quais foram as causas do conflito mundial? As de sempre inseridas praticamente em todas regiões e províncias do sistema moderno: fome, desemprego, exclusão social; o império do mercado acima de todas coisas... Ironicamente, o Bom Selvagem como Michel de Montaigne e Jean Jacques Rousseau contaram, por acaso foi a Europa ensinar a civilizados atear fogo ao Ancien Régime e iniciar a revolução de 1789. Eram índios tupinambás levados da Guanabara para França, os formadores do mito.
Diferentemente dos filósofos franceses, que fizeram os grandes homens de letras e historiadores brasileiros diante da monumental saga dos tupinambás? Claro, temos notáveis exceções com José de Alencar e Gonçalves Dias na literatura; na antropologia Florestan Fernandes e Darcy Ribeiro, na história Ronaldo Vainfas e outros; mas regra geral cuidaram particularmente para o Bom Selvagem e seus descendentes não se apoderar jamais do “fogo sagrado” das elites: o domínio da língua nacional pela palavra escrita e, consequentemente, o empoderamento da História.
O colonizador impôs sua própria língua aos povos indígenas colonizados e escravos arrancados de diversas nações africanas. Apagou a memória dos derrotados e a tradição oral para inventou uma história “nacional” de uso vulgar da sociedade a custo de enorme alienação, inclusive falsificação da própria história dos colonos degredados e deportados como indesejáveis na Europa. De modo que os pobres de Portugal por ambição da riqueza do Brasil passassem logo a representar o estamento civilizado na colônia. Cada camponês semiletrado na aldeia de origem atravessando o Atlântico ao desembarcar já posava de bacharel, funcionário de alfândega, missionário, capelão, capitão de milícia, senhor de engenho e dono de escravos. Não foi à toa que, em Portugal, chamar a alguém de brasileiro resultava ofensivo.
O clima jogou papel importante nas duas colônias que Portugal houve na América, o Estado do Brasil na faixa subtropical foi mais ameno a algarvios, madeirenses e açorianos. No Estado do Maranhão e Grão-Pará, sem índio não ia o colono a lugar nenhum: esta a grande diferença do clima equatorial na colonização europeia. O paradoxo, roubar a alma do filho do índio para fazer deste exilado do mato (caa boc, caboco) servo da gleba com que contemplados das sesmarias poderiam ocupar o “espaço vazio” e expulsar os pais de seus servos para o limbo da História. Foi o que sucedeu.
Mas, apesar da “caboclização” à força de decreto, palmatória e casamento compulsório de índias e portugueses deportados; cresce a reconstrução de parentesco entre populações cabocas e indígenas remanescentes dos antigos amazônidas nativos, estimados em até 6 milhões de habitantes à época da conquista do “rio das amazonas”, no século XVII. A cegueira dos donos do Poder deixa a historiografia de calças curtas; é mal sem cura: ameaças de infernos ou promessas de vida eterna no paraíso não puderam evitar que os senhores moderassem seus apetites e maus costumes.
Assim, com a farsa da história o velho mundo governa o novo... O desmedido sacrifício do século XX, malmente remediado com o Plano Marshall na reconstrução europeia; sem cuidar do resto do mundo, desperdiçou ocasião histórica para fazer uma comunidade mundial melhor. A lembrança de 6 milhões de judeus, 4 milhões de eslavos e 5 milhões de russos assassinados por intolerância, a mortandade de japoneses pelas bombas atômicas de Hiroshima e Nagasaki são crimes de lesa humanidade que se não poderá esquecer nunca. Mas, e do genocídio ameríndio, quem lembra ainda? Sobre o crime de destruição de civilizações negro-africanas deve-se silenciar? Cedo ou tarde há de chegar o dia em que todo mundo irá clamar pela adoção de um novo plano Marshall – aliás, Plano Mandela – para recuperação dos lesados da Terra: nesse momento será preciso que o Palácio Cabanagem aprove lei nova para corrigir o erro, passanndo a Data-Magna a se referir ao dia 28 de Maio em memória dos patriotas paraenses da heroica vila de Muaná.
A controvérsia, provavelmente, levará novos eleitos ao Palácio Cabanagem a rever a lei à luz de novos estudos históricos, inclusive sobre os 400 anos de fundação de Belém e criação do estado do Maranhão e Grão-Pará (Amazônia colonial portuguesa), no século XVII. Para o pensamento conservador a identidade da pátria depende das grandes datas e personalidades fundadoras da nacionalidade; porém o progresso da ciência histórica, essencialmente dialética e evolutiva no mundo contemporâneo; reclama sobretudo o fato histórico e sua interpretação historiográfica ao longo do tempo e das gerações.
Deste modo, se historiadores positivistas no passado podiam achar com razão que os mortos governam os vivos; e mais longe as mulheres não tinham direito a votar; o direito canônico permitia escravidão de indígenas e negros baseado em dogmas da antiguidade e pretexto de civilizar os bárbaros; os direitos humanos modernos a cabo de lutas memoráveis, nos diz o contrário. São as presentes gerações que explicam o passado e que constroem o futuro, tanto para o bem como o mal.
Não se poderia esperar de fontes coloniais uma opinião favorável aos povos conquistados e colonizados. Logo, a historiografia colonial para os estudos históricos contemporâneos não podem ser mera repetição de textos sagrados; pois isto seria tudo menos objeto da História enquanto ciência. As fontes históricas se expandem continuamente com novas pesquisas, descobertas e interpretações arqueológicas, etnológicas, antropológicas, geográficas e documentais que não só permitem, mas até mesmo obrigam a incluir personagens históricas antes condenadas como criminosos e hoje heróis, tais como a figura de Tiradentes, o mártir da Inconfidência Mineira.
Na história da Amazônia há heróis como Ajuricaba dos Manaus, cuja memória foi defendida da infâmia colonialista por ninguém menos que Joaquim Nabuco ao tratar da questão do Pirara, na fronteira do Brasil com a colônia amazônica da Inglaterra (hoje a República Cooperativista da Guiana). No Pará uma garimpagem minuciosa nas fontes do período colonial poderá achar episódios interessantes, como por exemplo, as cartas do padre Antônio Vieira, em especial referente à pacificação dos Nheengaíbas; onde em meios a mil peripécias inverossímeis escapa o papel inusitado do cacique Piié dos Mapuás como interlocutor avisado e liderança que desdiz a fama de canibais indomáveis que caçadores de escravos e o inimigo hereditário antropófago tupinambá inventavam sobre os habitantes da cobiçada e invencível ilha do Marajó.
No caso da adesão do Pará à Independência, a tal “data magna” não se sustenta diante de uma simples leitura de causas e consequências abordadas na principal fonte do período da guerra civil amazônica que ficou conhecida como a Cabanagem (1835-1840), Domingos Antônio Raiol, Barão de Guajará, em “Motins Políticos”. Raiol situa corretamente na panfletagem de Felipe Patroni, proprietário de escravos e partidário da revolução liberal do Porto; através do jornal “O Paraense”, primeiro órgão de imprensa na Amazônia; a origem da agitação popular contra o colonialismo.
A Miserável Revolução das Classes Infames
Décio Freitas em seu último livro tratou da Cabanagem, reprimida sangrentamente com um total de 30 mil pessoas mortas ou cerca de 25% da população do Pará na época. O nome de “cabanos” não foi assumidos pelos combatentes, mas obra do acadêmico Basílio de Magalhães, do IHGB, que na falta de um qualificativo comparou a revolução paraense com a Cabanada alagoana; deste nome devido a maior parte dos revoltosos viver em pobres cabanas, levando vida miserável que foi fator da revolta.
O norte do Brasil só passou a ser brasileiro um ano após o Grito do Ipiranga. Durante o domínio espanhol (1580-1640), em 1608, desenhou-se uma divisão norte e sul do território brasileiro, mas só em 1615 o Maranhão foi tomado aos franceses que fizeram alia a França Equinocial. Em 1621, o norte e o sul receberam nome de Estado do Brasil e Estado do Maranhão e Grão-Pará, este com capital em São Luís, que em 1751 passou a Estado do Grão-Pará e Maranhão, com capital em Belém. A mesma capital permaneceu na última mudança, em 1772, quando se desmembraram as duas partes, com as províncias do Maranhão e Pará. Era a Amazônia portuguesa uma colônia separada do Brasil, que fazia intercâmbio direto com a metrópole em Lisboa e o estrangeiro, sem intermediação do Rio de Janeiro. Belém era uma capital com expressiva presença estrangeira, enfim uma colônia equatorial separada do estado colonial do Brasil.
O peculiar colonialismo português na Amazônia, agravado pela geografia equatorial; criou uma das piores burguesias ultramarinas, incapaz do menor esforço sem depender de escravos até para ínfimos trabalhos domésticos e exploração de negros e negras de aluguel. A pobreza dos senhores era ostensiva de tal maneira que poucos podiam comprar escravos negros na praça do Maranhão, muito caros para a posse dos colonos do Pará, o resultado era uma opressão terrível e tirania insuportável sobre a massagada de tapuios (índios mansos; diferente de tapuia, índio brabo) e um conflito permanente entre o clero, governo e o estamento de colonos. O povo, portanto, era a massagada indígena desamparada acrescida de poucos negros escravos e mulatos libertos. Os “habitantes” da Cidade eram sinônimo de “branco” e “português”, mais por critério de renda que a cor da pele ou “raça” dos indivíduos. Muitos descendentes da patuleia lusa degredada faziam parte do povo, eram conhecidos por brancaranas (pseudo brancos, em língua geral amazônica), simpatizantes do regime republicano através de contatos com a vizinha Caiena (ocupada por tropas paraenses, de 1809 a 1817), partidários da adesão à independência do Brasil, e por fim aliados aos cabanos.
Com a nova da Independência em 1822, os paraenses como os povos de outras regiões e províncias periféricas agitaram-se na perspectiva de uma mudança de regime. Enquanto a classe comercial dependente das exportações temia o rompimento com o reino de Portugal, ao mesmo tempo que desejava o fim do domínio colonial, mas também descentralizar o país repartindo o poder com as províncias. A Constituinte convocada por Pedro I foi dissolvida sem solução de continuidade do velho regime e a própria independência caiu numa armadilha conservadora.
Em várias províncias surgiram oposições contra o governo imperial exigindo autonomia para as regiões. Neste contexto histórico ocorreu a renúncia de dom Pedro I e guerras civis como a Farroupilha, no Rio Grande do Sul, entre 1835 e 1845, e a Cabanagem, no Pará, de 1835 a 1840. Esta é motivo do último livro de Décio Freitas, “A Miserável Revolução das Classes Infames”. O autor postula a existência de uma testemunha dos acontecimentos, um bretão chamado Jean-Jacques Berthier, cujo pai teria sido partidário de François Noël Babeuf, dito Gracchus Babeuf, revolucionário morto na guilhotina durante o Terror, na Revolução Francesa, como o pai de Jean-Jacques Berthier.
Interessante observar os contatos históricos do Pará revolucionário com o exterior, dos republicanos dos Estados Unidos, revolução dos escravos e independência do Haiti, movimento liberal do Porto, a Carbonária italiana e jacobinos franceses. Décio Freitas conheceu o personagem por meio de cartas escritas desde Belém do Pará pelo próprio Berthier a um seu irmão que vivia na França. O historiador encontrou relatos privilegiados dos acontecimentos, Berthier é um jovem que participou da queda da Bastilha. Por isto ele, em 1797, se encontra deportado em Caiena e anos depois da ocupação anglo-portuguesa da Guiana francesa, cerca de 1820, passa a Belém do Pará aos 38 anos de idade. Sendo um veterano Berthier distinguiu os fatos, tensões encobertas, intenções mal disfarçadas, significados mais obscuros da Cabanagem. Décio Freitas pretendeu superar os “claros, omissões ou insuficiências” das informações nas cartas de Berthier, apesar do livro terminar sendo “uma narrativa à base daquilo que ele [Berthier] testemunhou”, “uma construção feita pelo historiador” da observação da luta popular vista com frieza e pessimismo pela testemunha estrangeira.
Um dos focos de interesse da obra é o modo de vida e a ação dos tapuios, populações indígenas destribalizadas (cabocos), ainda relativamente isolados das mais etnias do entorno da Cidade. Os tapuios formavam grupo ao mesmo tempo social e cultural homogêneo. Formaram a maior parte da população paraense em armas, apesar dos combatentes negros ansiosos por se ver livres da escravidão terem se distinguido de modo particular, mas de todo modo foram minoritários. Não havia capital suficiente no Pará para comprar grande número de escravos africanos. Outro foco do relato de Berthier se ocupa da trama política da Cabanagem, segundo lhe pareceu tratou-se de um confronto entre dois grupos socialmente distantes e diametralmente opostos: as “classes infames” formadas de tapuios, índios ainda aldeados, negros libertos, mestiços de variados tipos, gente pobre em geral, junto a setores de classe média como alguns comerciantes, jornalistas e padres. E as denominadas “principais famílias”, de grandes comerciantes, exportadores, latifundiários, ocupantes de altos postos mais da administração e da Justiça, claramente colonialistas pró-Portugal.
O historiador Décio Freitas abandona a aparente frieza das cartas de Berthier para tomar partido das “classes infames”. Sem, no entanto, lhes dotar de atributo messiânico ou revolucionário. O pessimismo de Berthier parece contaminar o derradeiro livro de Décio Freitas e o relato termina desesperador, as “principais famílias” vítimas do próprio egocentrismo restam indiferentes ao futuro da sociedade. Como se o destino de todo colono seja idealizar a mãe-pátria distante e devastar a Terra sempre pronto a evadir-se e emigrar. Enquanto as “classes infames” parecem condenadas a não saber autogovernarem-se, a estabelecer autonomia local, em sua deriva social entregam-se a sem número de desregramento com mais apego à lubricidade e ao sexo do que ao trabalho e à organização política.
Berthier talvez através de Décio Freitas tenha superestimado numa situação de guerra civil cenas de sexo e violência próprias de qualquer conflito armado, o civilizado projeta no bárbaro seus instintos sufocados no velho mundo. O diabo são os outros (Sartre), as “principais famílias” querem ver nas “classes infames” a natureza luxuriante e incontrolável. Berthier confunde datas e episódios dos inícios da Cabanagem, mas percebe perfeitamente que a Tragédia do brigue Palhaço (em outubro de 1823, em não em 1831) como desfecho do engodo anglo-português de 15 de agosto foi a causa primária do transe de 1835, 12 anos depois.
domingo, 15 de agosto de 2010
terça-feira, 6 de julho de 2010
Espiral dialética
-
Conectando a revolução industrial ao pé da letra na mina escura
e funda no fundo de quintal da aldeia global etecetera e tal
futebol e carnaval no circo da chuva em falta de pão para todos
haja pau grande do big irmão patrão da magna civilização
na contramão as tribos perdidas, unidos da barbaridade da cidade
os desunidos do Caos cagante e andante, o lixo montante
maré grande a romper pela tangente o cerco da classe/raça superior
a dar passagem assim assado ao circum-Caribe antepassado das Índias acidentais
represa na garganta da gente libertada pela ciência sem fronteiras
da base dialética natural saída da cabeça de Engels na velha Prússia operária
ao coração da marronagem multimídia de Frank Etienne no Haiti aqui e agora
outras periferias: subúrbios de Londres, Tóquio e San Paolo de Piratininga
Via dos Imigrantes
diabo velho bandeirante Anhanguera, já era!...
A verdadeira história da verdadeira cabanagem está à venda na feira
Ver O Peso da lida: 'mas porém', vendedoras de ervas mágicas, peixeiros
açougueiros do Mercado da carne e estivadores das Docas não sabem que sabem
quando e onde o pau cantou:
mas o terreiro é portal de ignotas paragens da vida, conexão de deuses e mortais...
São Benedito da Praia do Bruno de Menezes guarda segredos dos orixás
parentes na Santaria, Candomblé, Catimbó, Umbanda...
em busca do cacique bandoleiro Guamã (vivo ou morto que nem Zumbi)
o café Palheta foi roubado de Caiena que o roubou do Suriname que roubou
de alguém desde a biopirataria original cometida desde Etiópia...
ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão:
eis a salvação da humanidade pela contravenção e a economia da verdade!...
(como diria Stanislau Ponte Preta: implantem-se a moralidade,
ou que nos locupletemos todos...)
levem-se a abolição do Apartheid às últimas consequências
com um justo e perfeito plano Mandela
ou venha a nós o Apocalypso, dito a sambatória internacional
(salve-se quem puder com vivas aos sobreviventes da lei de Darwin:
'mas, antão' o comunismo primitivo estará morto e enterrado pra sempre
e do socialismo cientifico nunca mais se há de falar).
O café Palheta foi do Pará dar em São Paulo onde fez barões do Império
A fim de desagravar a invasão de Portugal pelas tropas do general Junot
Mandou-se a cabocada paraense das tropas de resgate invadir Caiena:
erro fatal da corte anglolusobrasileira, pois 'havera' do pulo da cerca
fazer contágio da revolução dos escravos do Haiti e da República
O grão Pará plantado em Piratininga deu sustância ao grito do Ipiranga,
debaixo do equador ouviu-se o grito imperador e mais do que depressa
respondeu-se presente: a gente sempre buscou o país do Cruzeiro do Sul...
Presente! O povo do Pará velho de guerra estava pronto
a tomar parte da Independência do Brasil varonil...
Que fez o Rio de Janeiro em agosto? Manda ao Norte mercenários ingleses...
longe do agente imperial juntar-se ao povo e erguer o proclama de Muaná
foi negociar seis por meia dúzia com coloniais da “data magna”,
daí o estouro da boiada em outubro e a tragédia do brigue “Palhaço”
grande palhaçada de 252 paraenses
presos e assassinados nos porões do navio São José Diligente:
“Palhaço” por vergonha burguesa...
desengano da independência e causa direta da fúria dos Cabanos.
À míngua de interesse acadêmico acerca da saga da Casa das Canoas,
todavia sempre necessitados de trabalho escravo desde o berço do Presépio
medalhões da pátria deram anistia aos cabanos sem entender a história:
civilizados não esquecem, mas perdoam quando lhes convém;
bárbaros ao contrário não perdoam, mas facilmente esquecem...
E o café Palheta voltou a fazer história no extremo-norte dos brasis
agora em contrabando das Guianas e Caribe: marzão transamazônico
o troco veio em sandálias havaianas, automóvel rabo de peixe e Brega music
a questão do Amapá há de contar melhor toda estória das canoas tapuias:
como “havera” o Haiti vir aqui parar nesta paragem do Apocalypso global
contrabandos, ritmos e cantares das antigas e mui procuradas Antilhas
velhos batuques de Moçambique nas brisas do ar caribenho até o grão Pará.
Do longuíssimo ciclo das Luzes ao pós-colonial ou pós-qualquer coisa
A diabolização do Outro pelas margens revessas da história
do fim do mundo, o belo-horrível Apocalypso
ilhas Afortunadas e descobrimento do País do Vento (Amerika pele-vermelha)
Imagine conversa de compadres em Macondo sobre mundos novos e velhos
A antiquíssima “ilha do Brazil” por mares nunca dantes da imaginação
o país do Futuro
carregamento de mitos greco-romanos e emigrantes
pirataria de tesouros africanos depositados no Egito dos faraós
daí a rapina praticada por súditos da deusa Europa
conexão de saberes de ilhas imaginárias e continentes globalizados
dialética da arte evasiva do universo...
Da cadeia de Robben Island, Cidade do Cabo, Nelson Mandela assomou o mundo
Frankétienne armado de palavras contundentes até os dentes
desvendou mistérios dos vóduns, furou o cerco de Ravine-Sèche;
Deszumbizou o Haiti: pérola afroameríndia das Américas;
Dalcídio Jurandir salvou os campos de Cachoeira do dilúvio universal
a criaturada grande da grande ilha do Marajó tomou o Ita do Norte
na bagagem do índio sutil retirante das ilhas no Rio de Janeiro
Arca de palavras mestiças pilotada por Cobra Norato
Herdeiros de Toussaint l'Ouverture povoando o Brasil
por via de ocupação de Caiena e o roubo do café Palheta...
Eis que Macondo zerou o fado negreiro e seus habitantes resgataram
e armaram caravelas queimadas e deixada por Cortez...
Velas ao mar a redescobrir novos mundos
que nem o imperador Mandinga a remos em caiaques e navegantes negros
muito antes de Colombo!
Quem diria, compadre! Um rei negro a atravessar o mar da África ao Haiti
Passando, a remo, pelas bocas do Amazonas e delta do Orenoco...
Acha pouco?
"uma aldeia de vinte casas de barro e taquara, construídas à margem de um rio de águas diáfanas que se precipitavam por um leito de pedras polidas, brancas e enormes como ovos pré-históricos" (Gabriel Garcia Marques),
reviravolta do vasto mundo sem solução (codinome: “mudança climática”)...
É o presente vivo e curioso que explica o passado morto, sepultado e mumificado:
Imagine Dalcídio, Frankétienne e Mandela
(Amazônias, Antilhas, Áfricas...).
Conversa de academia do peixe frito sobre Engels, Marx e Lênin...
Estes uns a explicar Zenão de Eléia, o velho Sócrates, Heráclito, Hegel...
A cicuta de Macondo é antítese da dialética importada de Atenas
Curare fabricado de veneno de jararaca pela mão da vingança
Ovo de serpente na senzala pelo insano trabalho escravo de Casa Grande
O fardo da natureza humana e a promessa de liberdade
Arte e engenho de homens e mulheres que não nasceram pra Besta.
Ah, a grande e desbocada risada de bordel na zona franca de Manaus!
quem será por vós, cabocos e cabocas do diabo Jurapari
que fala e ri pela boca dos pajés?
Hora da onça beber água: caixa de Pandora da devastação das florestas
bêbados e drogados, sex-shop, fast-food, aids [ai, Jesus!]
febre de sezão... garimpo, malária, sina de pária... maldição
Salvação da pátria em casas de Mina no Maranhão e grão Pará
minas de diamante de sangue em Serra Leoa!...
canoa furada ou pé na estrada, moçada...
Estrelas estremecem na escuridão da noite estranha...
O tambor no terreiro evoca os deuses e os guias na Encantaria.
(não ria, seu tolo! A obra humana vem apenas de começar)
O caos é criativo, tudo começou da água (segundo Zenão)
Em fogo e gelo o mundo vai se acabar, dizem profetas do dito cujo.
E eu com isto? – disse-me um caboco – amanhã vou pra Quatipuru.
Conectando a revolução industrial ao pé da letra na mina escura
e funda no fundo de quintal da aldeia global etecetera e tal
futebol e carnaval no circo da chuva em falta de pão para todos
haja pau grande do big irmão patrão da magna civilização
na contramão as tribos perdidas, unidos da barbaridade da cidade
os desunidos do Caos cagante e andante, o lixo montante
maré grande a romper pela tangente o cerco da classe/raça superior
a dar passagem assim assado ao circum-Caribe antepassado das Índias acidentais
represa na garganta da gente libertada pela ciência sem fronteiras
da base dialética natural saída da cabeça de Engels na velha Prússia operária
ao coração da marronagem multimídia de Frank Etienne no Haiti aqui e agora
outras periferias: subúrbios de Londres, Tóquio e San Paolo de Piratininga
Via dos Imigrantes
diabo velho bandeirante Anhanguera, já era!...
A verdadeira história da verdadeira cabanagem está à venda na feira
Ver O Peso da lida: 'mas porém', vendedoras de ervas mágicas, peixeiros
açougueiros do Mercado da carne e estivadores das Docas não sabem que sabem
quando e onde o pau cantou:
mas o terreiro é portal de ignotas paragens da vida, conexão de deuses e mortais...
São Benedito da Praia do Bruno de Menezes guarda segredos dos orixás
parentes na Santaria, Candomblé, Catimbó, Umbanda...
em busca do cacique bandoleiro Guamã (vivo ou morto que nem Zumbi)
o café Palheta foi roubado de Caiena que o roubou do Suriname que roubou
de alguém desde a biopirataria original cometida desde Etiópia...
ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão:
eis a salvação da humanidade pela contravenção e a economia da verdade!...
(como diria Stanislau Ponte Preta: implantem-se a moralidade,
ou que nos locupletemos todos...)
levem-se a abolição do Apartheid às últimas consequências
com um justo e perfeito plano Mandela
ou venha a nós o Apocalypso, dito a sambatória internacional
(salve-se quem puder com vivas aos sobreviventes da lei de Darwin:
'mas, antão' o comunismo primitivo estará morto e enterrado pra sempre
e do socialismo cientifico nunca mais se há de falar).
O café Palheta foi do Pará dar em São Paulo onde fez barões do Império
A fim de desagravar a invasão de Portugal pelas tropas do general Junot
Mandou-se a cabocada paraense das tropas de resgate invadir Caiena:
erro fatal da corte anglolusobrasileira, pois 'havera' do pulo da cerca
fazer contágio da revolução dos escravos do Haiti e da República
O grão Pará plantado em Piratininga deu sustância ao grito do Ipiranga,
debaixo do equador ouviu-se o grito imperador e mais do que depressa
respondeu-se presente: a gente sempre buscou o país do Cruzeiro do Sul...
Presente! O povo do Pará velho de guerra estava pronto
a tomar parte da Independência do Brasil varonil...
Que fez o Rio de Janeiro em agosto? Manda ao Norte mercenários ingleses...
longe do agente imperial juntar-se ao povo e erguer o proclama de Muaná
foi negociar seis por meia dúzia com coloniais da “data magna”,
daí o estouro da boiada em outubro e a tragédia do brigue “Palhaço”
grande palhaçada de 252 paraenses
presos e assassinados nos porões do navio São José Diligente:
“Palhaço” por vergonha burguesa...
desengano da independência e causa direta da fúria dos Cabanos.
À míngua de interesse acadêmico acerca da saga da Casa das Canoas,
todavia sempre necessitados de trabalho escravo desde o berço do Presépio
medalhões da pátria deram anistia aos cabanos sem entender a história:
civilizados não esquecem, mas perdoam quando lhes convém;
bárbaros ao contrário não perdoam, mas facilmente esquecem...
E o café Palheta voltou a fazer história no extremo-norte dos brasis
agora em contrabando das Guianas e Caribe: marzão transamazônico
o troco veio em sandálias havaianas, automóvel rabo de peixe e Brega music
a questão do Amapá há de contar melhor toda estória das canoas tapuias:
como “havera” o Haiti vir aqui parar nesta paragem do Apocalypso global
contrabandos, ritmos e cantares das antigas e mui procuradas Antilhas
velhos batuques de Moçambique nas brisas do ar caribenho até o grão Pará.
Do longuíssimo ciclo das Luzes ao pós-colonial ou pós-qualquer coisa
A diabolização do Outro pelas margens revessas da história
do fim do mundo, o belo-horrível Apocalypso
ilhas Afortunadas e descobrimento do País do Vento (Amerika pele-vermelha)
Imagine conversa de compadres em Macondo sobre mundos novos e velhos
A antiquíssima “ilha do Brazil” por mares nunca dantes da imaginação
o país do Futuro
carregamento de mitos greco-romanos e emigrantes
pirataria de tesouros africanos depositados no Egito dos faraós
daí a rapina praticada por súditos da deusa Europa
conexão de saberes de ilhas imaginárias e continentes globalizados
dialética da arte evasiva do universo...
Da cadeia de Robben Island, Cidade do Cabo, Nelson Mandela assomou o mundo
Frankétienne armado de palavras contundentes até os dentes
desvendou mistérios dos vóduns, furou o cerco de Ravine-Sèche;
Deszumbizou o Haiti: pérola afroameríndia das Américas;
Dalcídio Jurandir salvou os campos de Cachoeira do dilúvio universal
a criaturada grande da grande ilha do Marajó tomou o Ita do Norte
na bagagem do índio sutil retirante das ilhas no Rio de Janeiro
Arca de palavras mestiças pilotada por Cobra Norato
Herdeiros de Toussaint l'Ouverture povoando o Brasil
por via de ocupação de Caiena e o roubo do café Palheta...
Eis que Macondo zerou o fado negreiro e seus habitantes resgataram
e armaram caravelas queimadas e deixada por Cortez...
Velas ao mar a redescobrir novos mundos
que nem o imperador Mandinga a remos em caiaques e navegantes negros
muito antes de Colombo!
Quem diria, compadre! Um rei negro a atravessar o mar da África ao Haiti
Passando, a remo, pelas bocas do Amazonas e delta do Orenoco...
Acha pouco?
"uma aldeia de vinte casas de barro e taquara, construídas à margem de um rio de águas diáfanas que se precipitavam por um leito de pedras polidas, brancas e enormes como ovos pré-históricos" (Gabriel Garcia Marques),
reviravolta do vasto mundo sem solução (codinome: “mudança climática”)...
É o presente vivo e curioso que explica o passado morto, sepultado e mumificado:
Imagine Dalcídio, Frankétienne e Mandela
(Amazônias, Antilhas, Áfricas...).
Conversa de academia do peixe frito sobre Engels, Marx e Lênin...
Estes uns a explicar Zenão de Eléia, o velho Sócrates, Heráclito, Hegel...
A cicuta de Macondo é antítese da dialética importada de Atenas
Curare fabricado de veneno de jararaca pela mão da vingança
Ovo de serpente na senzala pelo insano trabalho escravo de Casa Grande
O fardo da natureza humana e a promessa de liberdade
Arte e engenho de homens e mulheres que não nasceram pra Besta.
Ah, a grande e desbocada risada de bordel na zona franca de Manaus!
quem será por vós, cabocos e cabocas do diabo Jurapari
que fala e ri pela boca dos pajés?
Hora da onça beber água: caixa de Pandora da devastação das florestas
bêbados e drogados, sex-shop, fast-food, aids [ai, Jesus!]
febre de sezão... garimpo, malária, sina de pária... maldição
Salvação da pátria em casas de Mina no Maranhão e grão Pará
minas de diamante de sangue em Serra Leoa!...
canoa furada ou pé na estrada, moçada...
Estrelas estremecem na escuridão da noite estranha...
O tambor no terreiro evoca os deuses e os guias na Encantaria.
(não ria, seu tolo! A obra humana vem apenas de começar)
O caos é criativo, tudo começou da água (segundo Zenão)
Em fogo e gelo o mundo vai se acabar, dizem profetas do dito cujo.
E eu com isto? – disse-me um caboco – amanhã vou pra Quatipuru.
terça-feira, 29 de junho de 2010
viagem com Brasilino e Saramago
isto me faz lembrar do ano de 1972. Recém casado, fui com Palmira, minha companheira e mãe de meus filhos; à antiga aldeia das Mangabeiras (berço indígena do município de Ponta de Pedras, na ilha do Marajó). Queria que ela soubesse daquela minha origem nativa que misturada à dela com raízes africanas na Guiné (escravos importados no Nordeste) e no Marrocos (judeus sefardistas emigrados no Pará) iamos começar a nossa prole...
eu e minha mulher temos herança comum em Portugal e Espanha (região da Galícia) com pé no Marajó desde a segunda metade do século 17... Uma teia de avós analfabetos, todavia sábios tantos quantos os lembrados avós do premio Nobel de Literatura português.
Fui a Ponta de Pedras apresentar minha cara metade aos parentes marajoaras e, naturalmente ao meu velho e querido mestre da história oral daquela aldeia, BRASILINO RODRIGUES...
Ele no reizado do coqueiral na beira da baia do Marajó com a família (está na cara, mestiça de índios e degredados lusos) nos oferecia doce água de coco quando, de repente, sem nenhuma provocação recente de minha parte (noves fora, em outros tempos quando deixei rastros na estrada a pé para convencer aquela gente a formar cooperativa de pescadores e explicar o que seria "reforma agrária": vem daí, em plena ditadura, minha modesta fama de comunista a que estava condenado a ser quando não mais por outra coisa, por ser sobrinho de DALCÍDIO JURANDIR filho daquele município...) saiu-se o velho caboco filósofo de ocasião me dizendo assim, à guisa de incentivo ao novo casal visitante:
-- Zé, eu sou um homem feliz...
Eu olhei a minha mulher, dizendo-lhe: "Viste? O homem mais feliz da terra não tem uma camisa pra vestir..."
De fato, na canícula do lugar mestre Brasilino não havia ar condicionado nem ventilador (nem precisava, com a brisa do mar tranzendo da baía canoas com o peixe nosso de cada dia), bastava tirar a camisa, sacudir fora o calor e toda má idéia consumista capaz de estragar o prazer de uma vida decente.
há que se não confundir a nobre e orgulhosa pobreza de uma gente invencível, com a miséria que acovarda e corrompe a HUMANIDADE dos já pobres de espírito deste o nascimento...
Esta é a questão! Tupy or not Tupy...
O Nobel lusíada que me não atendeu o convite [cf. "Novíssima Viagem Filosófica": Belém, 1999] para vir ao Marajó espiar o pisão iluminista do Diretório de Pombal, e, no entanto, levou consigo à Suécia nada menos que a parábola pastoril de parentes próximos do meu mestre Brasilino, os avós camponeses do Nobel da língua portuguesa.
quantos destes pobres avozinhos pastores de Portugal vieram cá enterrar seus ossos nas terras do Brasil procurado em sonhos no além mar? O imenso crime de lesa humanidade, praticado pelos ricos coloniais de lá e de cá, em nome de Deus e da Pátria contra os povos:
Divide e impera! (sentença romana), o povinho português e brasileiro jogados um contra o outro para glória de feitores dos monarcas usurpadores da felicidade alheia, infelizes e mesquinhos até o talo.
EIS QUE AINDA CARECE DESCOLONIZAR A LÍNGUA DE CAMÕES PARA FUNDAR DE FATO A LUSOFONIA INTERNACIONAL.
ave, Saramago no céu da memória lusitana!
Discurso de JOSÉ SARAMAGO na Academia Sueca
(ao receber o Prêmio Nobel de Literatura)
"O homem mais sábio que conheci em toda a minha vida
não sabia ler nem escrever. As quatro da madrugada, quando a promessa de um novo dia ainda vinha em terras de França, levantava-se da enxerga e saía para o campo, levando ao pasto a meia dúzia de porcas de
cuja fertilidade se alimentavam ele e a mulher. Viviam desta escassez os meus avós maternos, da pequena criação de porcos que, depois do desmame, eram vendidos aos vizinhos da aldeia. Azinhaga de seu nome, na província do Ribatejo.
Chamavam-se Jerónimo Melrinho e Josefa Caixinha esses avós, e eram analfabetos um e outro. No Inverno, quando o frio da noite apertava ao ponto de a água dos cântaros gelar dentro da casa, iam buscar às pocilgas os bácoros mais débeis e levavam-nos para a sua cama. Debaixo das mantas grosseiras, o calor dos humanos livrava os animaizinhos do enregelamento e salvava-os de uma morte certa. Ainda que fossem gente de bom caráter, não era por primores de alma compassiva que os dois velhos assim procediam: o que os preocupava, sem sentimentalismos nem retóricas, era proteger o seu ganha-pão, com a naturalidade de quem, para manter a vida, não aprendeu a pensar mais do que o indispensável.
Ajudei muitas vezes este meu avô Jerónimo nas suas andanças de pastor, cavei muitas vezes a terra do quintal anexo à casa e cortei lenha para o lume, muitas vezes, dando voltas e voltas à grande roda de ferro que acionava a bomba, fiz subir a água do poço comunitário e a transportei ao ombro, muitas vezes, às escondidas dos guardas das searas, fui com a minha avó, também pela madrugada, munidos de ancinho, panal e corda, a recolher nos restolhos a palha solta que depois haveria de servir para a cama do gado. E algumas vezes, em noites quentes de Verão, depois da ceia, meu avô me disse: "José, hoje vamos dormir os dois debaixo da figueira". Havia outras duas figueiras, mas aquela, certamente por ser a maior, por ser a mais antiga, por ser a de sempre, era, para toda as pessoas da casa, a figueira.
Mais ou menos por antonomásia, palavra erudita que só muitos anos depois viria a conhecer e a saber o que significava... No meio da paz noturna, entre os ramos altos da árvore, uma estrela aparecia-me, e depois, lentamente, escondia-se por trás de uma folha, e, olhando eu noutra direção, tal como um rio correndo em silêncio pelo céu côncavo, surgia a claridade opalescente da Via Láctea, o Caminho de Santiago, como ainda lhe chamávamos na aldeia.
Enquanto o sono não chegava, a noite povoava-se com as histórias e os casos que o meu avô ia contando: lendas, aparições, assombros, episódios singulares, mortes antigas, zaragatas de pau e pedra, palavras de antepassados, um incansável rumor de memórias que me mantinha desperto, ao mesmo tempo que suavemente me acalentava. Nunca pude saber se ele se calava quando se apercebia de que eu tinha adormecido, ou se continuava a falar para não deixar em meio a resposta à pergunta que invariavelmente lhe fazia nas pausas mais demoradas que ele calculadamente metia no relato: "E depois?". Talvez repetisse as histórias para si próprio, quer fosse para não as esquecer, quer fosse para as enriquecer com peripécias novas.
Naquela idade minha e naquele tempo de nós todos, nem será preciso dizer que eu imaginava que o meu avô Jerónimo era senhor de toda a ciência do mundo. Quando, à primeira luz da manhã, o canto dos pássaros me despertava, ele já não estava ali, tinha saído para o campo com os seus animais, deixando-me a dormir. Então levantava-me, dobrava a manta e, descalço (na aldeia andei sempre descalço até aos 14 anos), ainda com palhas agarradas ao cabelo, passava da parte cultivada do quintal para a outra onde se encontravam as pocilgas, ao lado da casa. Minha avó, já a pé antes do meu avô, punha-me na frente uma grande tigela de café com pedaços de pão e perguntava-me se tinha dormido bem. Se eu lhe contava algum mau sonho nascido das histórias do avô, ela sempre me tranqüilizava: "Não faças caso, em sonhos não há firmeza".
Pensava então que a minha avó, embora fosse também uma mulher muito sábia, não alcançava as alturas do meu avô, esse que, deitado debaixo da figueira, tendo ao lado o neto José, era capaz de pôr o universo em movimento apenas com duas palavras. Foi só muitos anos depois, quando o meu avô já se tinha ido deste mundo e eu era um homem feito, que vim a compreender que a avó, afinal, também acreditava em sonhos. Outra coisa não poderia significar que, estando ela sentada, uma noite, à porta da sua pobre casa, onde então vivia sozinha, a olhar as estrelas maiores e menores por cima da sua cabeça, tivesse dito estas palavras: "O mundo é tão bonito, e eu tenho tanta pena de morrer". Não disse medo de morrer, disse pena de morrer, como se a vida de pesado e contínuo trabalho que tinha sido a sua estivesse, naquele momento quase final, a receber a graça de uma suprema e derradeira despedida, a consolação da beleza revelada.
Estava sentada à porta de uma casa como não creio que tenha havido alguma outra no mundo porque nela viveu gente capaz de dormir com porcos como se fossem os seus próprios filhos, gente que tinha pena de ir-se da vida só porque o mundo era bonito, gente, e este foi o meu avô Jerónimo, pastor e contador de histórias, que, ao pressentir que a morte o vinha buscar, foi despedir-se das árvores do seu quintal, uma por uma, abraçando-se a elas e chorando porque sabia que não as tornaria a ver."
(por José Saramago)
-
eu e minha mulher temos herança comum em Portugal e Espanha (região da Galícia) com pé no Marajó desde a segunda metade do século 17... Uma teia de avós analfabetos, todavia sábios tantos quantos os lembrados avós do premio Nobel de Literatura português.
Fui a Ponta de Pedras apresentar minha cara metade aos parentes marajoaras e, naturalmente ao meu velho e querido mestre da história oral daquela aldeia, BRASILINO RODRIGUES...
Ele no reizado do coqueiral na beira da baia do Marajó com a família (está na cara, mestiça de índios e degredados lusos) nos oferecia doce água de coco quando, de repente, sem nenhuma provocação recente de minha parte (noves fora, em outros tempos quando deixei rastros na estrada a pé para convencer aquela gente a formar cooperativa de pescadores e explicar o que seria "reforma agrária": vem daí, em plena ditadura, minha modesta fama de comunista a que estava condenado a ser quando não mais por outra coisa, por ser sobrinho de DALCÍDIO JURANDIR filho daquele município...) saiu-se o velho caboco filósofo de ocasião me dizendo assim, à guisa de incentivo ao novo casal visitante:
-- Zé, eu sou um homem feliz...
Eu olhei a minha mulher, dizendo-lhe: "Viste? O homem mais feliz da terra não tem uma camisa pra vestir..."
De fato, na canícula do lugar mestre Brasilino não havia ar condicionado nem ventilador (nem precisava, com a brisa do mar tranzendo da baía canoas com o peixe nosso de cada dia), bastava tirar a camisa, sacudir fora o calor e toda má idéia consumista capaz de estragar o prazer de uma vida decente.
há que se não confundir a nobre e orgulhosa pobreza de uma gente invencível, com a miséria que acovarda e corrompe a HUMANIDADE dos já pobres de espírito deste o nascimento...
Esta é a questão! Tupy or not Tupy...
O Nobel lusíada que me não atendeu o convite [cf. "Novíssima Viagem Filosófica": Belém, 1999] para vir ao Marajó espiar o pisão iluminista do Diretório de Pombal, e, no entanto, levou consigo à Suécia nada menos que a parábola pastoril de parentes próximos do meu mestre Brasilino, os avós camponeses do Nobel da língua portuguesa.
quantos destes pobres avozinhos pastores de Portugal vieram cá enterrar seus ossos nas terras do Brasil procurado em sonhos no além mar? O imenso crime de lesa humanidade, praticado pelos ricos coloniais de lá e de cá, em nome de Deus e da Pátria contra os povos:
Divide e impera! (sentença romana), o povinho português e brasileiro jogados um contra o outro para glória de feitores dos monarcas usurpadores da felicidade alheia, infelizes e mesquinhos até o talo.
EIS QUE AINDA CARECE DESCOLONIZAR A LÍNGUA DE CAMÕES PARA FUNDAR DE FATO A LUSOFONIA INTERNACIONAL.
ave, Saramago no céu da memória lusitana!
Discurso de JOSÉ SARAMAGO na Academia Sueca
(ao receber o Prêmio Nobel de Literatura)
"O homem mais sábio que conheci em toda a minha vida
não sabia ler nem escrever. As quatro da madrugada, quando a promessa de um novo dia ainda vinha em terras de França, levantava-se da enxerga e saía para o campo, levando ao pasto a meia dúzia de porcas de
cuja fertilidade se alimentavam ele e a mulher. Viviam desta escassez os meus avós maternos, da pequena criação de porcos que, depois do desmame, eram vendidos aos vizinhos da aldeia. Azinhaga de seu nome, na província do Ribatejo.
Chamavam-se Jerónimo Melrinho e Josefa Caixinha esses avós, e eram analfabetos um e outro. No Inverno, quando o frio da noite apertava ao ponto de a água dos cântaros gelar dentro da casa, iam buscar às pocilgas os bácoros mais débeis e levavam-nos para a sua cama. Debaixo das mantas grosseiras, o calor dos humanos livrava os animaizinhos do enregelamento e salvava-os de uma morte certa. Ainda que fossem gente de bom caráter, não era por primores de alma compassiva que os dois velhos assim procediam: o que os preocupava, sem sentimentalismos nem retóricas, era proteger o seu ganha-pão, com a naturalidade de quem, para manter a vida, não aprendeu a pensar mais do que o indispensável.
Ajudei muitas vezes este meu avô Jerónimo nas suas andanças de pastor, cavei muitas vezes a terra do quintal anexo à casa e cortei lenha para o lume, muitas vezes, dando voltas e voltas à grande roda de ferro que acionava a bomba, fiz subir a água do poço comunitário e a transportei ao ombro, muitas vezes, às escondidas dos guardas das searas, fui com a minha avó, também pela madrugada, munidos de ancinho, panal e corda, a recolher nos restolhos a palha solta que depois haveria de servir para a cama do gado. E algumas vezes, em noites quentes de Verão, depois da ceia, meu avô me disse: "José, hoje vamos dormir os dois debaixo da figueira". Havia outras duas figueiras, mas aquela, certamente por ser a maior, por ser a mais antiga, por ser a de sempre, era, para toda as pessoas da casa, a figueira.
Mais ou menos por antonomásia, palavra erudita que só muitos anos depois viria a conhecer e a saber o que significava... No meio da paz noturna, entre os ramos altos da árvore, uma estrela aparecia-me, e depois, lentamente, escondia-se por trás de uma folha, e, olhando eu noutra direção, tal como um rio correndo em silêncio pelo céu côncavo, surgia a claridade opalescente da Via Láctea, o Caminho de Santiago, como ainda lhe chamávamos na aldeia.
Enquanto o sono não chegava, a noite povoava-se com as histórias e os casos que o meu avô ia contando: lendas, aparições, assombros, episódios singulares, mortes antigas, zaragatas de pau e pedra, palavras de antepassados, um incansável rumor de memórias que me mantinha desperto, ao mesmo tempo que suavemente me acalentava. Nunca pude saber se ele se calava quando se apercebia de que eu tinha adormecido, ou se continuava a falar para não deixar em meio a resposta à pergunta que invariavelmente lhe fazia nas pausas mais demoradas que ele calculadamente metia no relato: "E depois?". Talvez repetisse as histórias para si próprio, quer fosse para não as esquecer, quer fosse para as enriquecer com peripécias novas.
Naquela idade minha e naquele tempo de nós todos, nem será preciso dizer que eu imaginava que o meu avô Jerónimo era senhor de toda a ciência do mundo. Quando, à primeira luz da manhã, o canto dos pássaros me despertava, ele já não estava ali, tinha saído para o campo com os seus animais, deixando-me a dormir. Então levantava-me, dobrava a manta e, descalço (na aldeia andei sempre descalço até aos 14 anos), ainda com palhas agarradas ao cabelo, passava da parte cultivada do quintal para a outra onde se encontravam as pocilgas, ao lado da casa. Minha avó, já a pé antes do meu avô, punha-me na frente uma grande tigela de café com pedaços de pão e perguntava-me se tinha dormido bem. Se eu lhe contava algum mau sonho nascido das histórias do avô, ela sempre me tranqüilizava: "Não faças caso, em sonhos não há firmeza".
Pensava então que a minha avó, embora fosse também uma mulher muito sábia, não alcançava as alturas do meu avô, esse que, deitado debaixo da figueira, tendo ao lado o neto José, era capaz de pôr o universo em movimento apenas com duas palavras. Foi só muitos anos depois, quando o meu avô já se tinha ido deste mundo e eu era um homem feito, que vim a compreender que a avó, afinal, também acreditava em sonhos. Outra coisa não poderia significar que, estando ela sentada, uma noite, à porta da sua pobre casa, onde então vivia sozinha, a olhar as estrelas maiores e menores por cima da sua cabeça, tivesse dito estas palavras: "O mundo é tão bonito, e eu tenho tanta pena de morrer". Não disse medo de morrer, disse pena de morrer, como se a vida de pesado e contínuo trabalho que tinha sido a sua estivesse, naquele momento quase final, a receber a graça de uma suprema e derradeira despedida, a consolação da beleza revelada.
Estava sentada à porta de uma casa como não creio que tenha havido alguma outra no mundo porque nela viveu gente capaz de dormir com porcos como se fossem os seus próprios filhos, gente que tinha pena de ir-se da vida só porque o mundo era bonito, gente, e este foi o meu avô Jerónimo, pastor e contador de histórias, que, ao pressentir que a morte o vinha buscar, foi despedir-se das árvores do seu quintal, uma por uma, abraçando-se a elas e chorando porque sabia que não as tornaria a ver."
(por José Saramago)
-
sábado, 19 de junho de 2010
Saudades da Terra: conflito, colonialismo e devastação na Amazônia [5, final].
Neste ofício, quem manda escrever é a necessidade. O grito a quebrar o silêncio na ilha da distância. Eu por mim não mando nadinha: tenho juízo de obedecer ao impulso vital que me chega ao cérebro e ao coração através do arco das gerações passadas, sempre ansiosas em abrir caminhos ao que há de ser. De todo modo, quem decide o que fazer, como e quando é o tal de acaso. O acaso, mais forte que o destino; mais miraculoso que um deus grego; leva ele a garrafa do náufrago à deriva para dar à praia onde bem entender. É claro que há neste jogo limitadas possibilidades, todas pendentes do dito cujo que um ingênuo acreditaria ser capricho do destino. Fica convencionado, para efeito de trégua entre a santa madre igreja católica apostólica romana e a patota dos amigos do ateu José Saramago, que onde se lê "Acaso" é lícito ler "Deus", ou vice-versa.
As saudades da terra geraram por meu pobre intermédio quatro prosapoesias postadas no sítio Vermelho (www.vermelho.com.br), eu havia resolvido encerrar com uma mais, que agora será esta. Entretanto, o texto pronto da quinta saudade se evaporou por acaso num bug de software e a maré de elétrons levou tudo ao fundo do abismo. Com mãos abanado, suspirei conformado: ainda bem que antes desta me lembrei do mito de Sísifo. Haja a fazer tudo de novo: nada estranho para quem vai dobrando a casa de 73 outubros e queria ser romancista aos 16 anos de idade... As saudades revividas chegaram até minha ilha imaginária a bordo do notebook, via internet, desde o seiscentismo das ilhas dos Açores, donde Gaspar Frutuoso coletou saudades alheias e suas para viajar no tempo e espaço até a notícia da ilha "Graciosa, refúgio paradisíaco", obra sentimental de Fernando Silva.
O acaso fez-me, então, o favor de mandar a garrafa do amigo português entregue à corrente desde o arquipélago dos Açores. Curiosa conexão da infinita correnteza de neurônios que liga vidas e vidas além da morte de muita gente deste e outros mundos! Graças a sensibilidade de Fernando Silva, ao buscar asilo a seus pesares na Graciosa, pude revisitar o passado e buscar descobrir no futuro novas ilhas Afortunadas, tal qual Gaspar Frutuoso um dia lavrou nos começos ultramarinos no nebuloso mar da lenda e pré-história das ilhas do Atlântico. Ora, é caso de que estamos todos e todas enlaçados no tempo... Morremos todos e ressuscitamos todos na vida e na morte de uns e dos outros.
Eu tinha necessidade de reescrever a quinta e última saudade da série, quando deu-se o acaso da morte ir a Lanzarote visitar José Saramago enfermo para lhe dizer, como anjo exterminador: basta, José; já viajaste muito e inventaste muitos roteiros de viagem e estórias. Agora chega de ser gente. Urge que voltes ao pó original para que teu pensamento livre de outras inquietações seja estrela do firmanento na rota memorial das velhas navegações para descobrimento das ilhas Afortunadas no mundo achado e por achar...
E se nada disto é verdade, por acaso da invenção e minha pena está dito aqui e agora com fé sebastianista da ressurreição natural da vida eterna enquanto dura. Embora a história nunca se repita e ninguém mergulha duas vezes no mesmo rio; não é menos verdade que o ir e vir da maré, o fluxo e refluxo das necessidades; ficam entregues ao acaso de sucessivas soluções e sucessivos problemas ad nauseum... Destarte a vida e a morte são duas faces da existência. Ao fim e ao cabo, se Deus não criou o homem, o homem criou a Deus na ingênua ambição da eternidade, esta criancice da mente. Não fosse a cegueira humana inventar e pintar o diabo: aqui a coisa muda de figura e o que era bem se torna mal... Exemplo geral, as Ilhas Afortunas foram causa de diveros infortúnios, a rica ilha do Brazil atraiu a pobreza da Europa e fez miséria no Novo Mundo; o tesouro do El Dorado fomentou o inferno verde no Novo Éden...
Culpa de quem? Da cegueira, diria prontamente o padre Antônio Vieira no "Sermão aos Peixes"... Se fosse o pecado original de Eva e Adão - a mulher porque deu "ouvidos" à mentira da Serpente e o homem porque não resistiu ao fruto oferecido - o Criador estaria encrencado perante qualquer juízo racional. Pois, os primeiros humanos eram inocentes como as plantas e os bichos do Éden ou dotados de razão e consciência não foram suficientemente instruídos sobre o perigo da explosão demográfica. Erro de planejamento cósmico? Impossível para um ser onisciente. Se Ele fizesse criaturas tão desvalidas assim para colocar toda culpa do universo sobre elas; não poderia ser misericordioso o Criador e deixar em dúvida nobres almas, tais como Madre Tereza de Calcutá, consumida na solidão...
Era preciso crer na vida além da própria vida para vencer a morte, tal qual no Evangelho segundo Jesus Cristo. Ou encarar a morte como condição absoluta da sucessão natural das coisas: acho eu que Saramago optou por este atalho da consciência, incansavelmente, sem se preocupar em ser simpático a ninguém nem poupar a qualquer tradição. Foi pois a "Viagem a Portugal" que me deu oportunidade de mandar minha garrafa de náufrago sob capa da "Revista Iberiana" [Belém-PA, Brasil, 1999] com título de "Novíssima Viagem Filosófica"...
A garrafa que não chegou a Lanzarote, por acaso andou de mão em mão mas muitos não a abriram e os que abriram não gostaram ou não entenderam a mensagem do viajante do roteiro do sábio Alexandre Rodrigues Ferreira, exceção de Paolo Carlucci que se tornou o maior divulgador do achado iberiano no rio das Amazonas e do professor Sergio Nunes, que logo viu na escrita caboca saída da floresta amazônica vestígios, como que miraculosos, da filosofia tardia de Giambattista Vico no século XXI... Melhor ainda: Fernando Silva acertou na mosca, quando adivinhou que por aí vai a prístima herança das Ilhas Afortunadas. A emendar, por acaso, o roteiro de Almeida Garret com a viagem filosófica ao Grão Pará, Rio Negro e Mato Grosso... Visita sentimental à chusma de vilas e lugares portugueses superpostos (à muque) sobre o chão de aldeias jesuíticas da invenção da Amazônia.
Posto que há muito a falar sobre terras e mares que Portugal descobriu é prudente ficar por aqui com as saudades antigas. Preparar a barca do sonho para outras aventuras com vistas a boa esperança da lusofonia transnacional até a volta triunfal do encoberto rei dom Sebastião. Ou seja, do reino de Deus baixado à terra humana. Grande invenção do Apocalypso pós-devastação da Amazônia! São José Saramago chanceler de Jesus Cristo na terra dos Tapuias, secretário de estado do Quinto Império do vasto mundo de Drummond; capital em Belém do Grão Pará onde a heresia dos índios fez levantar o Presépio com os turcos encantados, reis Magos, as tribos perdidas do cativeiro da Babilônia e do rio Babel sob protetorado celeste da santa mãe de Deus de Nazaré soberana do círio em Belém d'Amazônia...
As saudades da terra geraram por meu pobre intermédio quatro prosapoesias postadas no sítio Vermelho (www.vermelho.com.br), eu havia resolvido encerrar com uma mais, que agora será esta. Entretanto, o texto pronto da quinta saudade se evaporou por acaso num bug de software e a maré de elétrons levou tudo ao fundo do abismo. Com mãos abanado, suspirei conformado: ainda bem que antes desta me lembrei do mito de Sísifo. Haja a fazer tudo de novo: nada estranho para quem vai dobrando a casa de 73 outubros e queria ser romancista aos 16 anos de idade... As saudades revividas chegaram até minha ilha imaginária a bordo do notebook, via internet, desde o seiscentismo das ilhas dos Açores, donde Gaspar Frutuoso coletou saudades alheias e suas para viajar no tempo e espaço até a notícia da ilha "Graciosa, refúgio paradisíaco", obra sentimental de Fernando Silva.
O acaso fez-me, então, o favor de mandar a garrafa do amigo português entregue à corrente desde o arquipélago dos Açores. Curiosa conexão da infinita correnteza de neurônios que liga vidas e vidas além da morte de muita gente deste e outros mundos! Graças a sensibilidade de Fernando Silva, ao buscar asilo a seus pesares na Graciosa, pude revisitar o passado e buscar descobrir no futuro novas ilhas Afortunadas, tal qual Gaspar Frutuoso um dia lavrou nos começos ultramarinos no nebuloso mar da lenda e pré-história das ilhas do Atlântico. Ora, é caso de que estamos todos e todas enlaçados no tempo... Morremos todos e ressuscitamos todos na vida e na morte de uns e dos outros.
Eu tinha necessidade de reescrever a quinta e última saudade da série, quando deu-se o acaso da morte ir a Lanzarote visitar José Saramago enfermo para lhe dizer, como anjo exterminador: basta, José; já viajaste muito e inventaste muitos roteiros de viagem e estórias. Agora chega de ser gente. Urge que voltes ao pó original para que teu pensamento livre de outras inquietações seja estrela do firmanento na rota memorial das velhas navegações para descobrimento das ilhas Afortunadas no mundo achado e por achar...
E se nada disto é verdade, por acaso da invenção e minha pena está dito aqui e agora com fé sebastianista da ressurreição natural da vida eterna enquanto dura. Embora a história nunca se repita e ninguém mergulha duas vezes no mesmo rio; não é menos verdade que o ir e vir da maré, o fluxo e refluxo das necessidades; ficam entregues ao acaso de sucessivas soluções e sucessivos problemas ad nauseum... Destarte a vida e a morte são duas faces da existência. Ao fim e ao cabo, se Deus não criou o homem, o homem criou a Deus na ingênua ambição da eternidade, esta criancice da mente. Não fosse a cegueira humana inventar e pintar o diabo: aqui a coisa muda de figura e o que era bem se torna mal... Exemplo geral, as Ilhas Afortunas foram causa de diveros infortúnios, a rica ilha do Brazil atraiu a pobreza da Europa e fez miséria no Novo Mundo; o tesouro do El Dorado fomentou o inferno verde no Novo Éden...
Culpa de quem? Da cegueira, diria prontamente o padre Antônio Vieira no "Sermão aos Peixes"... Se fosse o pecado original de Eva e Adão - a mulher porque deu "ouvidos" à mentira da Serpente e o homem porque não resistiu ao fruto oferecido - o Criador estaria encrencado perante qualquer juízo racional. Pois, os primeiros humanos eram inocentes como as plantas e os bichos do Éden ou dotados de razão e consciência não foram suficientemente instruídos sobre o perigo da explosão demográfica. Erro de planejamento cósmico? Impossível para um ser onisciente. Se Ele fizesse criaturas tão desvalidas assim para colocar toda culpa do universo sobre elas; não poderia ser misericordioso o Criador e deixar em dúvida nobres almas, tais como Madre Tereza de Calcutá, consumida na solidão...
Era preciso crer na vida além da própria vida para vencer a morte, tal qual no Evangelho segundo Jesus Cristo. Ou encarar a morte como condição absoluta da sucessão natural das coisas: acho eu que Saramago optou por este atalho da consciência, incansavelmente, sem se preocupar em ser simpático a ninguém nem poupar a qualquer tradição. Foi pois a "Viagem a Portugal" que me deu oportunidade de mandar minha garrafa de náufrago sob capa da "Revista Iberiana" [Belém-PA, Brasil, 1999] com título de "Novíssima Viagem Filosófica"...
A garrafa que não chegou a Lanzarote, por acaso andou de mão em mão mas muitos não a abriram e os que abriram não gostaram ou não entenderam a mensagem do viajante do roteiro do sábio Alexandre Rodrigues Ferreira, exceção de Paolo Carlucci que se tornou o maior divulgador do achado iberiano no rio das Amazonas e do professor Sergio Nunes, que logo viu na escrita caboca saída da floresta amazônica vestígios, como que miraculosos, da filosofia tardia de Giambattista Vico no século XXI... Melhor ainda: Fernando Silva acertou na mosca, quando adivinhou que por aí vai a prístima herança das Ilhas Afortunadas. A emendar, por acaso, o roteiro de Almeida Garret com a viagem filosófica ao Grão Pará, Rio Negro e Mato Grosso... Visita sentimental à chusma de vilas e lugares portugueses superpostos (à muque) sobre o chão de aldeias jesuíticas da invenção da Amazônia.
Posto que há muito a falar sobre terras e mares que Portugal descobriu é prudente ficar por aqui com as saudades antigas. Preparar a barca do sonho para outras aventuras com vistas a boa esperança da lusofonia transnacional até a volta triunfal do encoberto rei dom Sebastião. Ou seja, do reino de Deus baixado à terra humana. Grande invenção do Apocalypso pós-devastação da Amazônia! São José Saramago chanceler de Jesus Cristo na terra dos Tapuias, secretário de estado do Quinto Império do vasto mundo de Drummond; capital em Belém do Grão Pará onde a heresia dos índios fez levantar o Presépio com os turcos encantados, reis Magos, as tribos perdidas do cativeiro da Babilônia e do rio Babel sob protetorado celeste da santa mãe de Deus de Nazaré soberana do círio em Belém d'Amazônia...
sexta-feira, 11 de junho de 2010
Saudades da Terra: conflito, colonialismo e devastação na Amazônia [4].
O nome e a invenção do Brasil.
A origem do nome “Brasil” deu margem a diversas hipóteses, antes de ser o país descoberto por Cabral batizou o Monte Brasil, no arquipélago dos Açores; donde passou ao Novo Mundo. O filólogo Adelino José da Silva Azevedo diz que se trata de palavra celta embora as origens mais remotas poderiam chegar aos fenícios, mercadores de um corante mineral vermelho extraído pelos celtas, povo minerador da Ibéria e Irlanda. Os gregos tomaram o lugar dos fenícios no comércio do produto que chamavam "kinnabar". Através do latim passou a "cinnabar" donde se chamou "cinábrio" em português e "cinabrio" em espanhol. Uma das características das línguas celtas é inverter as partículas, assim "kinnabar" passou a "barkino" e deu lugar a "barcino" aplicado a animais de pelo avermelhado, com variantes para designar a cor vermelha em diversas línguas tendo influência céltica.
Artesãos da Idade Média começaram a usar um corante vermelho extraído de madeira que, na Toscana, chamou-se "verzino", em Veneza "berziy" e em Génova "brazi". O nome logo foi usado para denominar também a madeira donde tal corante era extraído, conhecida na Espanha como "palo Brasil" ou "palo de Pernambuco", em Portugal "pau-brasil". Entre cronistas coloniais portugueses como João de Barros, Frei Vicente do Salvador ou Pêro de Magalhães Gandavo, há consenso sobre a origem do nome Brasil. Nos documentos só há uma versão, que é a do nome Brasil derivar do pau da tinta dito pau-brasil. Gandavo escreve que depois que o pau da tinta chegou a Portugal chamou-se de Brasil à colônia de Santa Cruz: "Chamaram de Brasil por ser vermelho e ter semelhança de brasa e daqui ficou esta terra com este nome de Brasil".
Na época os exploradores guardavam rigoroso segredo sobre lugares que achavam ou conquistavam, a fim de garantir privilégio de navegação e comércio. Assim se espalhou na Europa a notícia de que se havia achado certa "ilha do Brasil", no meio do oceano Atlântico, donde chegava o vermelho “brasil”. O gentílico "brasileiro" surgiu no século XVI, inicialmente apenas aos que faziam o mercado do pau-brasil. Só na primeira constituição brasileira, em 1824, "brasileiro" passou a designar oficialmente naturais do Brasil. Antes de "Brasil" as terras brasileiras descobertas em 1500 foram chamadas de Monte Pascoal, Terra dos Papagaios (designação popular), Ilha de Vera Cruz, Terra de Santa Cruz, Nova Lusitânia, Cabrália, etc. Os povos originais tupis chamavam ao país de Pindorama (terra das Palmeiras) e ao norte (Amazônia brasileira na atualidade) era chamado pelos mesmos de “Tapuya tetama” (terra dos Tapuias).
Do mesmo modo como na distância os navegadores viram, primeiramente, o “Monte Pascoal” antes de chegar à Ilha da Vera Cruz; também séculos antes eles viram primeiramente o “Monte Brasil” para depois achar as ilhas dos Açores... A “Ilha do Brazil” ou “Hy Brazil” era uma das ilhas míticas do Atlântico no ciclo de lendas de São Brandão, as Ilhas Afortunadas imaginadas ao extremo ocidente do velho mundo.
Cartografia do país do futuro.
José Saramago descreve como era sonho de qualquer Sancho Pança insone levantar cedo da cama para ir ao paço rogar licença de el-rei para navegar o Mar Oceano a fim descobrir uma ilha qualquer desconhecida, que nem um proletário desempregado anseia por acertar prêmio da loteria: saudade congênita de povos ribeirinhos... A cartografia medieval indica como a “Ilha do Brasil”, a Antília, a ilha de São Brandão, as Sete Cidades e as ilhas Afortunadas foram insistentemente procuradas na imensidão marítima. A ilha mítica do Brazil firma o topônimo muito antes de 1500 e invalida a teoria do pau-brasil. Não só a viagem secreta do cosmógrafo do rei (cartógrafo real) Duarte Pacheco Pereira (1498) ao Grão Pará para medições da linha de Tordesilhas (1494) e resguardo da costa do Brasil ainda encoberto; como a viagem de Vicente Pinzon (1500) ao Ceará já tinham acontecida antes do descobrimento de Pedro Álvares Cabral: na realidade o Brasil, como lugar mítico, já estava estabelecendo no vocabulário dos povos marítimos há séculos. E o país das Palmeiras é mais velho do que o jovem “país do Futuro”.
A busca da Ilha do Brazil foi uma fixação das navegações renascentistas do Atlântico. Desde muito antes de 1500, o Monte Brasil escalou na península em face da cidade de Angra, nos Açores. Depois se deslocou a sudoeste rumo ao mar das Caraíbas e depois foi ancorar no litoral do nosso Brasil de 500 anos. A palavra gaélica irlandesa é breazáil, ou simplesmente brazil, barcino ou bracino em castelhano; varzino ou brazino em português. Todos estes vocábulos têm significado geral de vermelho. Contudo é no gaélico irlandês onde permaneceu vivo o substrato celta. A palavra sobreviveu até ao século XVIII, como em O'Brasil dado a poema do irlandês Moore, sendo também referida pelo folclorista O'Flaherty. A origem da palavra gaélica O'Brazil é o celta Hy Breasil, que significa descendentes do vermelho, ou os do vermelho. Deste modo, o termo serviu de referência a fenícios e gregos que ao deixar o comércio de cinábrio com os celtas determinaram como o desaparecimento das ilhas míticas nas brumas do Mar Oceano. Em compensação, surgiu um povo afortunado e lendário que nunca mais voltou à Irlanda natal, para viver na paradisíaca “ilha do Brazil”, dentre o arquipélago imaginário da tradição de São Brandão.
Erupção do maravilhoso celta no além mar
Segundo Paulo Pereira, “Enciclopédia dos Lugares Mágicos de Portugal”, volume 8, Lisboa, 2006; a “ilha Brazil” transportada pelo imaginário celta decadente no continente europeu ressurge na cartografia náutica, desde o século XIII. Tem variantes do nome original e se localiza próximo a Irlanda donde vai para o meio do Oceano. Surgiu num velho mapa da Catalunha, de 1325 e 1330; no mapa de Dulcert de 1339, no dos irmãos Pizagani de 1375 e 1378; com o cartógrafo veneziano Andrea Bianco de 1436, citando o Mar dos Sargaços. A ilha ambicionada está no mapa veneziano Zuane Pizzigano e no de um anônimo de Weimar, ambos de 1424. Prova da fervura da demanda com que se achou o arquipélago dos Açores e as ilhas Antília, Satanazes, Saya e Ymana.
O historiador português Armando Cortesão formula a «hipotética eventualidade do conhecimento tardo-medieval dos Açores, do Atlântico Central, dos arquipélagos das Caraíbas ou Antilhas». Por aí também vai o descobrimento do continente americano pelos portugueses. As tais ilhas míticas do Atlântico aparecem na carta náutica do genovês Battista Beccario, onde as ilhas lendárias são claramente identificadas com os Açores reais, na expressão "ilhas nova ou recentemente descobertas". Também nas cartas de Bartolomeu Pareto (1455) e Gracioso Benincasa, de 1470 e 1482. Como «O'Brasil» é nome próprio irlandês; «Hy Bressail» ou «O Brazil» na acepção de «Ilha Afortunada»), «Brasil», «Bracil», «Bracir», são corruptelas da palavra original gaélica. Cartografia delirante de ilhas como a dos Demônios; Avalon, a lenda do rei arthur, ilha de são Brandão, Drogio, Emparedada, Estotiland e Grocelandia. A Ilha do Brazil foi procurada com esperança, inclusive pelo polêmico Cristóvão Colombo, comenta Paulo Pereira.
Os portugueses tirando da imaginação deram nome da “Ilha Brazil” à ilha península que se conhece nos Açores como Ilha Terceira, onde existe o Monte Brasil. Indaga aquele autor: «De resto, porque se chamaria àquela madeira pau-brasil, se a palabra brasil não tivesse um significado mítico, ligado com certeza às brasas, porque assim o admite a etimologia céltica e germânica de Renan”. Com apenas 2.400 km² de superfície o arquipélago dos Açores descobertos em 1427 por Diogo de Silves, piloto de el-rei de Portugal; foi o primeiro “Brasil” que encobriu o caminho marítimo para as Índias: primeiro passo para o Descobrimento. A Escola de Sagres servindo de capa às maquinações secretas de mercadores de Veneza e navegadores de Gênova. O golpe de Cristóvão Colombo apenas coloca Castela na corrida e eleva as tensões entre latinos e germânicos.
As explorações seguras dos portugueses começaram pela ilha da Madeira e Porto Santo para chegar à ilha de Santa Maria. Até o ano de 1439 foram descobertas 7 das 9 ilhas dos Açores: Santa Maria (127 km²), Terceira (406 km²), São Jorge (244 km²), Faial (172 km²), Pico (441 km²), São Miguel (760 km²) e Graciosa (62 km²). As outras, Flores (164 km²) e Corvo (16 km²), foram depois descobertas por Diogo de Teive, um escudeiro do Infante Dom Henrique, em 1452. A povoação das ilhas se fez a partir de 1439, por ordem do rei dom Afonso que encarregou seu tio, o Infante dom Henrique, a povoar as ilhas distantes para produção de trigo que escasseava no continente e já era raro na Madeira; a exploração comercial e apoio às frotas no seu regresso da África, Extremo Oriente e, mais tarde, do Brasil. Com escassez de população em Portugal, o povoamento das ilhas do atlântico foi imperativo para servir de base a futuras descobertas com aspiração máxima de chegar às Índias.
A origem do nome “Brasil” deu margem a diversas hipóteses, antes de ser o país descoberto por Cabral batizou o Monte Brasil, no arquipélago dos Açores; donde passou ao Novo Mundo. O filólogo Adelino José da Silva Azevedo diz que se trata de palavra celta embora as origens mais remotas poderiam chegar aos fenícios, mercadores de um corante mineral vermelho extraído pelos celtas, povo minerador da Ibéria e Irlanda. Os gregos tomaram o lugar dos fenícios no comércio do produto que chamavam "kinnabar". Através do latim passou a "cinnabar" donde se chamou "cinábrio" em português e "cinabrio" em espanhol. Uma das características das línguas celtas é inverter as partículas, assim "kinnabar" passou a "barkino" e deu lugar a "barcino" aplicado a animais de pelo avermelhado, com variantes para designar a cor vermelha em diversas línguas tendo influência céltica.
Artesãos da Idade Média começaram a usar um corante vermelho extraído de madeira que, na Toscana, chamou-se "verzino", em Veneza "berziy" e em Génova "brazi". O nome logo foi usado para denominar também a madeira donde tal corante era extraído, conhecida na Espanha como "palo Brasil" ou "palo de Pernambuco", em Portugal "pau-brasil". Entre cronistas coloniais portugueses como João de Barros, Frei Vicente do Salvador ou Pêro de Magalhães Gandavo, há consenso sobre a origem do nome Brasil. Nos documentos só há uma versão, que é a do nome Brasil derivar do pau da tinta dito pau-brasil. Gandavo escreve que depois que o pau da tinta chegou a Portugal chamou-se de Brasil à colônia de Santa Cruz: "Chamaram de Brasil por ser vermelho e ter semelhança de brasa e daqui ficou esta terra com este nome de Brasil".
Na época os exploradores guardavam rigoroso segredo sobre lugares que achavam ou conquistavam, a fim de garantir privilégio de navegação e comércio. Assim se espalhou na Europa a notícia de que se havia achado certa "ilha do Brasil", no meio do oceano Atlântico, donde chegava o vermelho “brasil”. O gentílico "brasileiro" surgiu no século XVI, inicialmente apenas aos que faziam o mercado do pau-brasil. Só na primeira constituição brasileira, em 1824, "brasileiro" passou a designar oficialmente naturais do Brasil. Antes de "Brasil" as terras brasileiras descobertas em 1500 foram chamadas de Monte Pascoal, Terra dos Papagaios (designação popular), Ilha de Vera Cruz, Terra de Santa Cruz, Nova Lusitânia, Cabrália, etc. Os povos originais tupis chamavam ao país de Pindorama (terra das Palmeiras) e ao norte (Amazônia brasileira na atualidade) era chamado pelos mesmos de “Tapuya tetama” (terra dos Tapuias).
Do mesmo modo como na distância os navegadores viram, primeiramente, o “Monte Pascoal” antes de chegar à Ilha da Vera Cruz; também séculos antes eles viram primeiramente o “Monte Brasil” para depois achar as ilhas dos Açores... A “Ilha do Brazil” ou “Hy Brazil” era uma das ilhas míticas do Atlântico no ciclo de lendas de São Brandão, as Ilhas Afortunadas imaginadas ao extremo ocidente do velho mundo.
Cartografia do país do futuro.
José Saramago descreve como era sonho de qualquer Sancho Pança insone levantar cedo da cama para ir ao paço rogar licença de el-rei para navegar o Mar Oceano a fim descobrir uma ilha qualquer desconhecida, que nem um proletário desempregado anseia por acertar prêmio da loteria: saudade congênita de povos ribeirinhos... A cartografia medieval indica como a “Ilha do Brasil”, a Antília, a ilha de São Brandão, as Sete Cidades e as ilhas Afortunadas foram insistentemente procuradas na imensidão marítima. A ilha mítica do Brazil firma o topônimo muito antes de 1500 e invalida a teoria do pau-brasil. Não só a viagem secreta do cosmógrafo do rei (cartógrafo real) Duarte Pacheco Pereira (1498) ao Grão Pará para medições da linha de Tordesilhas (1494) e resguardo da costa do Brasil ainda encoberto; como a viagem de Vicente Pinzon (1500) ao Ceará já tinham acontecida antes do descobrimento de Pedro Álvares Cabral: na realidade o Brasil, como lugar mítico, já estava estabelecendo no vocabulário dos povos marítimos há séculos. E o país das Palmeiras é mais velho do que o jovem “país do Futuro”.
A busca da Ilha do Brazil foi uma fixação das navegações renascentistas do Atlântico. Desde muito antes de 1500, o Monte Brasil escalou na península em face da cidade de Angra, nos Açores. Depois se deslocou a sudoeste rumo ao mar das Caraíbas e depois foi ancorar no litoral do nosso Brasil de 500 anos. A palavra gaélica irlandesa é breazáil, ou simplesmente brazil, barcino ou bracino em castelhano; varzino ou brazino em português. Todos estes vocábulos têm significado geral de vermelho. Contudo é no gaélico irlandês onde permaneceu vivo o substrato celta. A palavra sobreviveu até ao século XVIII, como em O'Brasil dado a poema do irlandês Moore, sendo também referida pelo folclorista O'Flaherty. A origem da palavra gaélica O'Brazil é o celta Hy Breasil, que significa descendentes do vermelho, ou os do vermelho. Deste modo, o termo serviu de referência a fenícios e gregos que ao deixar o comércio de cinábrio com os celtas determinaram como o desaparecimento das ilhas míticas nas brumas do Mar Oceano. Em compensação, surgiu um povo afortunado e lendário que nunca mais voltou à Irlanda natal, para viver na paradisíaca “ilha do Brazil”, dentre o arquipélago imaginário da tradição de São Brandão.
Erupção do maravilhoso celta no além mar
Segundo Paulo Pereira, “Enciclopédia dos Lugares Mágicos de Portugal”, volume 8, Lisboa, 2006; a “ilha Brazil” transportada pelo imaginário celta decadente no continente europeu ressurge na cartografia náutica, desde o século XIII. Tem variantes do nome original e se localiza próximo a Irlanda donde vai para o meio do Oceano. Surgiu num velho mapa da Catalunha, de 1325 e 1330; no mapa de Dulcert de 1339, no dos irmãos Pizagani de 1375 e 1378; com o cartógrafo veneziano Andrea Bianco de 1436, citando o Mar dos Sargaços. A ilha ambicionada está no mapa veneziano Zuane Pizzigano e no de um anônimo de Weimar, ambos de 1424. Prova da fervura da demanda com que se achou o arquipélago dos Açores e as ilhas Antília, Satanazes, Saya e Ymana.
O historiador português Armando Cortesão formula a «hipotética eventualidade do conhecimento tardo-medieval dos Açores, do Atlântico Central, dos arquipélagos das Caraíbas ou Antilhas». Por aí também vai o descobrimento do continente americano pelos portugueses. As tais ilhas míticas do Atlântico aparecem na carta náutica do genovês Battista Beccario, onde as ilhas lendárias são claramente identificadas com os Açores reais, na expressão "ilhas nova ou recentemente descobertas". Também nas cartas de Bartolomeu Pareto (1455) e Gracioso Benincasa, de 1470 e 1482. Como «O'Brasil» é nome próprio irlandês; «Hy Bressail» ou «O Brazil» na acepção de «Ilha Afortunada»), «Brasil», «Bracil», «Bracir», são corruptelas da palavra original gaélica. Cartografia delirante de ilhas como a dos Demônios; Avalon, a lenda do rei arthur, ilha de são Brandão, Drogio, Emparedada, Estotiland e Grocelandia. A Ilha do Brazil foi procurada com esperança, inclusive pelo polêmico Cristóvão Colombo, comenta Paulo Pereira.
Os portugueses tirando da imaginação deram nome da “Ilha Brazil” à ilha península que se conhece nos Açores como Ilha Terceira, onde existe o Monte Brasil. Indaga aquele autor: «De resto, porque se chamaria àquela madeira pau-brasil, se a palabra brasil não tivesse um significado mítico, ligado com certeza às brasas, porque assim o admite a etimologia céltica e germânica de Renan”. Com apenas 2.400 km² de superfície o arquipélago dos Açores descobertos em 1427 por Diogo de Silves, piloto de el-rei de Portugal; foi o primeiro “Brasil” que encobriu o caminho marítimo para as Índias: primeiro passo para o Descobrimento. A Escola de Sagres servindo de capa às maquinações secretas de mercadores de Veneza e navegadores de Gênova. O golpe de Cristóvão Colombo apenas coloca Castela na corrida e eleva as tensões entre latinos e germânicos.
As explorações seguras dos portugueses começaram pela ilha da Madeira e Porto Santo para chegar à ilha de Santa Maria. Até o ano de 1439 foram descobertas 7 das 9 ilhas dos Açores: Santa Maria (127 km²), Terceira (406 km²), São Jorge (244 km²), Faial (172 km²), Pico (441 km²), São Miguel (760 km²) e Graciosa (62 km²). As outras, Flores (164 km²) e Corvo (16 km²), foram depois descobertas por Diogo de Teive, um escudeiro do Infante Dom Henrique, em 1452. A povoação das ilhas se fez a partir de 1439, por ordem do rei dom Afonso que encarregou seu tio, o Infante dom Henrique, a povoar as ilhas distantes para produção de trigo que escasseava no continente e já era raro na Madeira; a exploração comercial e apoio às frotas no seu regresso da África, Extremo Oriente e, mais tarde, do Brasil. Com escassez de população em Portugal, o povoamento das ilhas do atlântico foi imperativo para servir de base a futuras descobertas com aspiração máxima de chegar às Índias.
terça-feira, 1 de junho de 2010
Saudades da Terra: conflito, colonialismo e devastação na Amazônia [3]
As ilhas atlânticas na base de construção do Brasil
A fim de ilustrar a presente série de artigos tomamos título emprestado da obra seiscentista “As Saudades da Terra” de autoria de Gaspar Frutuoso sobre o arquipélago dos Açores, ilha da Madeira e Canárias, acrescida de notas sobre Cabo Verde e outras regiões do Atlântico Sul. O significado das ilhas atlânticas na formação cultural e política do Brasil, incluindo a invenção da Amazônia; é sumamente importante. Entretanto, o Brasil moderno esquece a contribuição dos ilhéus na colonização portuguesa. Dependemos muitíssimo do Mar Territorial brasileiro e muitas vezes olvidamos o Mar-Oceano dos começos de nossa história.
Daí que para vir aos dias da devastação do meio ambiente nas regiões, inventar o país do futuro que desejamos deixar às futuras gerações e que não fique só na saudade do “paraíso perdido”; nós vamos à pinceladas recordando o passado aqui e acolá para explicar alguma coisa de nossos bons e maus usos e costumes herdados de além mar. A obra saudosista de Gaspar Frutuoso versa sobre história, geografia, usos e costumes das ilhas atlânticas nos inícios do século XVII. Mesmo tempo dos começos da colonização do Maranhão e Grão Pará (Amazônia lusitana), como se sabe, separada do estado-colônia do Brasil. O público brasileiro em geral não lembra, ou simplesmente não sabe, que a Amazônia foi colônia de Portugal separada do Brasil, desde a tomada do Maranhão (1615) até a Adesão à Independência (1823). Mesmo durante o tempo em que a corte real portuguesa esteve no Rio de Janeiro (1808-1821) a subordinação econômica da segunda colônia portuguesa na América do Sul ao continente europeu permaneceu inalterada, embora formal e administrativamente dependente da sede do reino no Brasil.
Em breve vamos completar, entre 2015 e 2016, 400 anos da tomada do Maranhão e fundação de Belém do Grão Pará. Por coincidência em 2015 termina o prazo estabelecido pela ONU das chamadas metas do Milênio. Ótima oportunidade para rever o passado e cogitar acerca do avenir. Falamos das saudades de Portugal continental e nos esquecemos, muitas vezes, das especifidades da Madeira, dos Açores e Cabo Verde. As ilhas que foram escalas dos caminhos marítimos e abriram as portas de África e esconderam a lendária “ilha” do “Brazyl” – chave das navegações para as Índias orientais – , até as naus de Sagres fundearem no distante país das especiarias e dos marajás.
Gaspar Frutuoso fez manuscrito da referida, com diversas emendas de próprio punho, mas não publicou a obra talvez devido à ocupação espanhola. O manuscrito fazendo parte da biblioteca do escritor foi doada ao Colégio dos Jesuítas de Ponta Delegada, onde ficou até 1760. Ano da expulsão dos Jesuítas de Portugal. O manuscrito foi levado por particulares que o doaram à Junta Geral de Ponta Delgada e incorporado à Biblioteca e Arquivo Público de Ponta Delgada. A obra foi publicada em 1873. Existem várias edições parciais e integrais das Saudades da Terra. Como outras literaturas das ilhas do Atlântico obras como esta possibilitam ao leitor brasileiro compreender retrospectivamente a invenção do Brasil de fora para dentro e, por outra parte, confrontar a pré-história oceânica com os primórdios das regiões do gigante Brasil.
Pré-história dos descobrimentos marítimos
A idade média foi mais do que a simples queda do império de Roma e fim da antiguidade. Ela foi também a perda do comércio das antigas rotas entre o Oriente e Ocidente, deste modo o conhecimento de terras a oeste da Europa foi, pouco a pouco, constituindo o reino do mito. As lendas medievais da Atlântida, das sete cidades, das terras de São Brandão, as ilhas Afortunadas, a ilha do Brazyl, a Antília, as Ilhas Azuis, Terra dos Bacalhaus, e muitas outras terras imaginárias ou reais perdidas no Mar Oceano são reminiscências daquele conhecimento difuso, cheio de incerteza, mas contante dos contos e das aventuras das sociedades medievais atraídas para além do horizonte e das praias do Atlântico encantador e aterrorizante a um só tempo.
É esta saudade congênita de povos ribeirinhos e insulares que acalentou os primórdios do Brasil. Na Europa, na última metade do século XIV, a especulação intelectual e novidades e tecnológicas que anteciparam a Renascença, fomentam roteiros e cartas de marear onde aparecem dentre a pletora de fantasias muitas dessas ilhas e terras. A febre de conhecimento geográfico retoma contatos comerciais e renova as navegações entre o mar Mediterrâneo e o oceano Atlântico com mercadores genoveses, florentinos e venezianos. Surgem melhores navios e o fervor da expansão do cristianismo para além da Europa, movimento de expansão dos horizontes europeus recriando antigas ligações. Ou seja, a velha pulsão imperial no quadro de um outro tempo gerando o espaço geopolítico.
Não precisa dizer que é preciso perder algo muito valioso para desejar refazê-lo ou o reencontrar. Portugal participa desse movimento expansivista, graças à sua geografia. Com que atraiu capitais e novidades técnicas levando a crescente mestria nas artes da construção naval e da navegação oceânica. Evidentemente, o capital da imaginação gerou o fundo mitológico que não deve ser desprezado na procura das ilhas do mar ocidental, tornando-se rapidamente em decisão prioritária de um poderosa vontade coletiva. Surge assim a legenda do Infante dom Henrique assumindo papel de grande mecenas e autarca da empresa de descobrimento do caminho das Índias, de modo decisivo para tirar Portugal de seu confinamento na esquina do Mediterrâneo com o Atlântico e passar à vanguarda da ocupação e povoamento das ilhas e terras atlânticas.
A Macaronésia, conjunto de ilhas atlânticas próximas à Península Ibérica formada pelo arquipélago dos Açores, Canárias e Madeira, tem raízes nas míticas ilhas Afortunadas imaginadas como unidade geográfica numa historiografia de povoamento comum onde as mesmas famílias aparecem por todas as ilhas: são originalmente os Bettencourt, os Câmara, os Álamo, os Baldaia e muitos outros que povoaram o Brasil, a partir do Maranhão, Pará, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. É disto que trata a obra seminal do historiador açoriano Gaspar Frutuoso, as Saudades da Terra, e serve de exemplo para procurar saber mais das ilhas do Atlântico na formação do Brasil.
Dizem comentaristas da obra, que as primeiras ilhas aparecem na literatura oficial por voltas de 1291: convém lembrar que por esta data o Brasil estava bastante povoado de diversos povos falando milhares de línguas diferentes, tais como as antigas ilhas Molucas (no atual arquipélago da Indonésia), que foram modernizadas sob a civilização islâmica, mas continuam falando lá a sua babel entendendo-se geralmente em inglês, como os brasileiros monoglotas em português do Oiapoque ao Chuí. Na Amazônia, a emblemática Cultura Marajoara havia atingido seu apogeu e os invasores Aruãs vindos das Guianas começavam a dominar as ilhas do Marajó, para estabelecer uma certa cronologia entre as diversas ilhas atlânticas das respectivas margens e do meio do Oceano.
O nome Brasil passou pelos Açores antes de desembarcar em Porto Seguro
As ilhas Afortunadas cederam espaço na imaginação dos nautas para dar lugar as Canárias (“terra dos cães), dizem que por ser as únicas habitadas na periferia europeia e dado grande número de cães que teriam se reproduzidos a partir de expedição enviada pelo rei Juba II da Mauritânia, no século I. Em 1402, os normandos Jean de Bettencourt e Gadifer de la Salle, a serviço do reino de Castela subjugam as populações nativas e iniciaram a dominação dos guanches (paleo bérberes), num genocídio que se completou em quase um século. Vestibular da conquista e destruição das Índias Ocidentais, com a conquista das últimas populações de Tenerife em 1496. Com o descobrimento da América (1492), a soberania das ilhas Canárias passou a ser disputada por Castela e Portugal, e acaba a contenda sendo objeto de arbitragem do estado do Vaticano a favor de Castela, posse reconhecida pelo rei dom Afonso V de Portugal no tratado de Alcáçovas, colocando fim à guerra da sucessão do reino de Castela.
Surgem, então, as primeira referências às ilhas da Madeira e Porto Santo, em 1418, ocupadas pelos portugueses e, finalmente, os primeiros contatos com os Açores, em 1427. O nacionalismo luso reclama a primazia do descobrimento dos Açores. Sabe-se que as ilhas dos Açores eram desabitadas, há indícios de que as ilhas já eram conhecidas ou pelo menos suspeitavam-se da existência delas, pois o Infante dom Henrique mandou achar as ilhas. A linguagem é própria da historiografia portuguesa, que diferencia “descobrimento” como revelação de terras achadas todavia de direito incerto e “achamento”; encontro do que se procura ou topa por acaso. Para mandar achar parece que existe probabilidade de encontrar. Os pesquisadores dos Açores referem-se a diversos vestígios que apontam a passagens de navegadores antes do povoamento. Outro problema é o nome Açores. Na antiga cartografia as ilhas eram identificadas como as "Ilhas Afortunadas" ou como "Ilhas de São Brandão". Atualmente, admitem-se que a toponímia vem da presença de aves identificadas pelos marinheiros portugueses como pertencentes à espécie de falconídeos do continente. Esta informação é criticada com base em que a única ave de rapina até hoje no arquipélago é o milhafre ("Buteo buteo rotschildi"), aparentemente, de recente introdução já que a ecologia das ilhas lhes era claramente desfavorável: o milhafre prefere como alimento pequenos mamíferos, os quais não existiam ao tempo do povoamento (os únicos mamíferos nativos são minúsculos morcegos).
A hipótese de que a toponímia das ilhas se deve à devoção religiosa do colono Gonçalo Velho a Santa Maria dos Açores, padroeira da freguesia de Açores, em Celorico da Beira (Portugal continental); está ganhando adeptos. Por último, poderia ser aportuguesamento do dialeto genovês ou florentino de “azzurre” ou “azzorre” correspondente às lendárias Ilhas Azuis; sugestão, dizem autores portugueses, da tonalidade verde azulada da vegetação nativa dos Açores. A paisagem mítica não se sobrepôs apenas ao nome do arquipélago. Em São Miguel e no Pico há povoados ditos as Sete Cidades, nome mítico que passou também ao Piauí (parque nacional das Sete Cidades); na Terceira, a península do Monte Brasil com registo anterior a 1500, certifica a mítica ilha do O’Brasil, ou Breasil, dos celtas irlandeses testemunha o nome que antes de chegar ao Brasil passou pelos Açores; ou os Mosteiros (da tradição de São Brandão) presentes na ilha de São Miguel e nas Flores, para além de Cabo Verde.
A partir da década de 1420, navios de Gonçalo Velho Cabral, Diogo de Silves e outros, com autorização prévia ou não, começaram a abordar e explorar os Açores. As ilhas mais ocidentais das Flores e Corvo só foram visitada depois de 1450, quando as mais ilhas já tinham razoável população, sua entrada no domínio lusíada deu-se, em 1452, durante viagem de Pedro Vazquez de la Frontera e Diogo de Teive no regresso de procura das outras ilhas míticas, ou talvez de uma pescaria na Terra dos Bacalhaus (atual Terra Nova, Canadá). Além do reconhecimento das costas e lugares de porto seguro para fazer aguada, se destinaram a lançar vacas, ovelhas, cabras, porcos e galinhas que pudessem se aclimatar e reproduzir para sustento de futuro povoamento. Em São Miguel há referência a um grupo de escravos deixados na foz da Ribeira da Povoação, cerca da metade da década de 1430. A colonização deu-se pela ilha de Santa Maria, primeira povoação, atual Vila do Porto na baía onde desaguavam duas ribeiras de águas cristalinas, só resta uma agora depois que a desflorestação da ilha alterou o meio ambiente original.
No começo da década de 1440 as colônias na foz das ribeiras de São Miguel, da Terceira, do Faial e talvez do Pico sustentavam-se da caça de aves e dos animais domésticos deixados a solta, além da pesca. A abundância de lenha e água, a fertilidade de solos vulcânicos, tornavam as ilhas fáceis de colonizar, tanto mais que a falta de trigo, que poderia ser facilmente cultivado, era constante em Portugal. As rochas de urzela, um valioso líquen tintureiro, deixava pensar na exploração econômica das ilhas e levaram ao rápido povoamento. Depois, desastres naturais, ataques de piratas e superpopulação e mudança do clima levaram à pobreza: os casais passariam ao imenso e “despovoado” Brasil. Um aventureiro chamado Simão Estácio da Silveira, patrão de navio, tira proveito da situação com um panfleto dedicado aos pobres de Portugal (leia-se Açores), em 1618, lhes prometendo o paraíso no Maranhão... Desamparados e famintos os pobres de Portugal roubaram as terras dos índios e os escravizaram. O Maranhão era terra do Bom Selvagem tupinambá, a resposta foi duríssima (uma centena de “portugueses” massacrados pelos índios) e a represália genocida não deixou margem a dúvidas do que viria mais tarde ainda
A fim de ilustrar a presente série de artigos tomamos título emprestado da obra seiscentista “As Saudades da Terra” de autoria de Gaspar Frutuoso sobre o arquipélago dos Açores, ilha da Madeira e Canárias, acrescida de notas sobre Cabo Verde e outras regiões do Atlântico Sul. O significado das ilhas atlânticas na formação cultural e política do Brasil, incluindo a invenção da Amazônia; é sumamente importante. Entretanto, o Brasil moderno esquece a contribuição dos ilhéus na colonização portuguesa. Dependemos muitíssimo do Mar Territorial brasileiro e muitas vezes olvidamos o Mar-Oceano dos começos de nossa história.
Daí que para vir aos dias da devastação do meio ambiente nas regiões, inventar o país do futuro que desejamos deixar às futuras gerações e que não fique só na saudade do “paraíso perdido”; nós vamos à pinceladas recordando o passado aqui e acolá para explicar alguma coisa de nossos bons e maus usos e costumes herdados de além mar. A obra saudosista de Gaspar Frutuoso versa sobre história, geografia, usos e costumes das ilhas atlânticas nos inícios do século XVII. Mesmo tempo dos começos da colonização do Maranhão e Grão Pará (Amazônia lusitana), como se sabe, separada do estado-colônia do Brasil. O público brasileiro em geral não lembra, ou simplesmente não sabe, que a Amazônia foi colônia de Portugal separada do Brasil, desde a tomada do Maranhão (1615) até a Adesão à Independência (1823). Mesmo durante o tempo em que a corte real portuguesa esteve no Rio de Janeiro (1808-1821) a subordinação econômica da segunda colônia portuguesa na América do Sul ao continente europeu permaneceu inalterada, embora formal e administrativamente dependente da sede do reino no Brasil.
Em breve vamos completar, entre 2015 e 2016, 400 anos da tomada do Maranhão e fundação de Belém do Grão Pará. Por coincidência em 2015 termina o prazo estabelecido pela ONU das chamadas metas do Milênio. Ótima oportunidade para rever o passado e cogitar acerca do avenir. Falamos das saudades de Portugal continental e nos esquecemos, muitas vezes, das especifidades da Madeira, dos Açores e Cabo Verde. As ilhas que foram escalas dos caminhos marítimos e abriram as portas de África e esconderam a lendária “ilha” do “Brazyl” – chave das navegações para as Índias orientais – , até as naus de Sagres fundearem no distante país das especiarias e dos marajás.
Gaspar Frutuoso fez manuscrito da referida, com diversas emendas de próprio punho, mas não publicou a obra talvez devido à ocupação espanhola. O manuscrito fazendo parte da biblioteca do escritor foi doada ao Colégio dos Jesuítas de Ponta Delegada, onde ficou até 1760. Ano da expulsão dos Jesuítas de Portugal. O manuscrito foi levado por particulares que o doaram à Junta Geral de Ponta Delgada e incorporado à Biblioteca e Arquivo Público de Ponta Delgada. A obra foi publicada em 1873. Existem várias edições parciais e integrais das Saudades da Terra. Como outras literaturas das ilhas do Atlântico obras como esta possibilitam ao leitor brasileiro compreender retrospectivamente a invenção do Brasil de fora para dentro e, por outra parte, confrontar a pré-história oceânica com os primórdios das regiões do gigante Brasil.
Pré-história dos descobrimentos marítimos
A idade média foi mais do que a simples queda do império de Roma e fim da antiguidade. Ela foi também a perda do comércio das antigas rotas entre o Oriente e Ocidente, deste modo o conhecimento de terras a oeste da Europa foi, pouco a pouco, constituindo o reino do mito. As lendas medievais da Atlântida, das sete cidades, das terras de São Brandão, as ilhas Afortunadas, a ilha do Brazyl, a Antília, as Ilhas Azuis, Terra dos Bacalhaus, e muitas outras terras imaginárias ou reais perdidas no Mar Oceano são reminiscências daquele conhecimento difuso, cheio de incerteza, mas contante dos contos e das aventuras das sociedades medievais atraídas para além do horizonte e das praias do Atlântico encantador e aterrorizante a um só tempo.
É esta saudade congênita de povos ribeirinhos e insulares que acalentou os primórdios do Brasil. Na Europa, na última metade do século XIV, a especulação intelectual e novidades e tecnológicas que anteciparam a Renascença, fomentam roteiros e cartas de marear onde aparecem dentre a pletora de fantasias muitas dessas ilhas e terras. A febre de conhecimento geográfico retoma contatos comerciais e renova as navegações entre o mar Mediterrâneo e o oceano Atlântico com mercadores genoveses, florentinos e venezianos. Surgem melhores navios e o fervor da expansão do cristianismo para além da Europa, movimento de expansão dos horizontes europeus recriando antigas ligações. Ou seja, a velha pulsão imperial no quadro de um outro tempo gerando o espaço geopolítico.
Não precisa dizer que é preciso perder algo muito valioso para desejar refazê-lo ou o reencontrar. Portugal participa desse movimento expansivista, graças à sua geografia. Com que atraiu capitais e novidades técnicas levando a crescente mestria nas artes da construção naval e da navegação oceânica. Evidentemente, o capital da imaginação gerou o fundo mitológico que não deve ser desprezado na procura das ilhas do mar ocidental, tornando-se rapidamente em decisão prioritária de um poderosa vontade coletiva. Surge assim a legenda do Infante dom Henrique assumindo papel de grande mecenas e autarca da empresa de descobrimento do caminho das Índias, de modo decisivo para tirar Portugal de seu confinamento na esquina do Mediterrâneo com o Atlântico e passar à vanguarda da ocupação e povoamento das ilhas e terras atlânticas.
A Macaronésia, conjunto de ilhas atlânticas próximas à Península Ibérica formada pelo arquipélago dos Açores, Canárias e Madeira, tem raízes nas míticas ilhas Afortunadas imaginadas como unidade geográfica numa historiografia de povoamento comum onde as mesmas famílias aparecem por todas as ilhas: são originalmente os Bettencourt, os Câmara, os Álamo, os Baldaia e muitos outros que povoaram o Brasil, a partir do Maranhão, Pará, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. É disto que trata a obra seminal do historiador açoriano Gaspar Frutuoso, as Saudades da Terra, e serve de exemplo para procurar saber mais das ilhas do Atlântico na formação do Brasil.
Dizem comentaristas da obra, que as primeiras ilhas aparecem na literatura oficial por voltas de 1291: convém lembrar que por esta data o Brasil estava bastante povoado de diversos povos falando milhares de línguas diferentes, tais como as antigas ilhas Molucas (no atual arquipélago da Indonésia), que foram modernizadas sob a civilização islâmica, mas continuam falando lá a sua babel entendendo-se geralmente em inglês, como os brasileiros monoglotas em português do Oiapoque ao Chuí. Na Amazônia, a emblemática Cultura Marajoara havia atingido seu apogeu e os invasores Aruãs vindos das Guianas começavam a dominar as ilhas do Marajó, para estabelecer uma certa cronologia entre as diversas ilhas atlânticas das respectivas margens e do meio do Oceano.
O nome Brasil passou pelos Açores antes de desembarcar em Porto Seguro
As ilhas Afortunadas cederam espaço na imaginação dos nautas para dar lugar as Canárias (“terra dos cães), dizem que por ser as únicas habitadas na periferia europeia e dado grande número de cães que teriam se reproduzidos a partir de expedição enviada pelo rei Juba II da Mauritânia, no século I. Em 1402, os normandos Jean de Bettencourt e Gadifer de la Salle, a serviço do reino de Castela subjugam as populações nativas e iniciaram a dominação dos guanches (paleo bérberes), num genocídio que se completou em quase um século. Vestibular da conquista e destruição das Índias Ocidentais, com a conquista das últimas populações de Tenerife em 1496. Com o descobrimento da América (1492), a soberania das ilhas Canárias passou a ser disputada por Castela e Portugal, e acaba a contenda sendo objeto de arbitragem do estado do Vaticano a favor de Castela, posse reconhecida pelo rei dom Afonso V de Portugal no tratado de Alcáçovas, colocando fim à guerra da sucessão do reino de Castela.
Surgem, então, as primeira referências às ilhas da Madeira e Porto Santo, em 1418, ocupadas pelos portugueses e, finalmente, os primeiros contatos com os Açores, em 1427. O nacionalismo luso reclama a primazia do descobrimento dos Açores. Sabe-se que as ilhas dos Açores eram desabitadas, há indícios de que as ilhas já eram conhecidas ou pelo menos suspeitavam-se da existência delas, pois o Infante dom Henrique mandou achar as ilhas. A linguagem é própria da historiografia portuguesa, que diferencia “descobrimento” como revelação de terras achadas todavia de direito incerto e “achamento”; encontro do que se procura ou topa por acaso. Para mandar achar parece que existe probabilidade de encontrar. Os pesquisadores dos Açores referem-se a diversos vestígios que apontam a passagens de navegadores antes do povoamento. Outro problema é o nome Açores. Na antiga cartografia as ilhas eram identificadas como as "Ilhas Afortunadas" ou como "Ilhas de São Brandão". Atualmente, admitem-se que a toponímia vem da presença de aves identificadas pelos marinheiros portugueses como pertencentes à espécie de falconídeos do continente. Esta informação é criticada com base em que a única ave de rapina até hoje no arquipélago é o milhafre ("Buteo buteo rotschildi"), aparentemente, de recente introdução já que a ecologia das ilhas lhes era claramente desfavorável: o milhafre prefere como alimento pequenos mamíferos, os quais não existiam ao tempo do povoamento (os únicos mamíferos nativos são minúsculos morcegos).
A hipótese de que a toponímia das ilhas se deve à devoção religiosa do colono Gonçalo Velho a Santa Maria dos Açores, padroeira da freguesia de Açores, em Celorico da Beira (Portugal continental); está ganhando adeptos. Por último, poderia ser aportuguesamento do dialeto genovês ou florentino de “azzurre” ou “azzorre” correspondente às lendárias Ilhas Azuis; sugestão, dizem autores portugueses, da tonalidade verde azulada da vegetação nativa dos Açores. A paisagem mítica não se sobrepôs apenas ao nome do arquipélago. Em São Miguel e no Pico há povoados ditos as Sete Cidades, nome mítico que passou também ao Piauí (parque nacional das Sete Cidades); na Terceira, a península do Monte Brasil com registo anterior a 1500, certifica a mítica ilha do O’Brasil, ou Breasil, dos celtas irlandeses testemunha o nome que antes de chegar ao Brasil passou pelos Açores; ou os Mosteiros (da tradição de São Brandão) presentes na ilha de São Miguel e nas Flores, para além de Cabo Verde.
A partir da década de 1420, navios de Gonçalo Velho Cabral, Diogo de Silves e outros, com autorização prévia ou não, começaram a abordar e explorar os Açores. As ilhas mais ocidentais das Flores e Corvo só foram visitada depois de 1450, quando as mais ilhas já tinham razoável população, sua entrada no domínio lusíada deu-se, em 1452, durante viagem de Pedro Vazquez de la Frontera e Diogo de Teive no regresso de procura das outras ilhas míticas, ou talvez de uma pescaria na Terra dos Bacalhaus (atual Terra Nova, Canadá). Além do reconhecimento das costas e lugares de porto seguro para fazer aguada, se destinaram a lançar vacas, ovelhas, cabras, porcos e galinhas que pudessem se aclimatar e reproduzir para sustento de futuro povoamento. Em São Miguel há referência a um grupo de escravos deixados na foz da Ribeira da Povoação, cerca da metade da década de 1430. A colonização deu-se pela ilha de Santa Maria, primeira povoação, atual Vila do Porto na baía onde desaguavam duas ribeiras de águas cristalinas, só resta uma agora depois que a desflorestação da ilha alterou o meio ambiente original.
No começo da década de 1440 as colônias na foz das ribeiras de São Miguel, da Terceira, do Faial e talvez do Pico sustentavam-se da caça de aves e dos animais domésticos deixados a solta, além da pesca. A abundância de lenha e água, a fertilidade de solos vulcânicos, tornavam as ilhas fáceis de colonizar, tanto mais que a falta de trigo, que poderia ser facilmente cultivado, era constante em Portugal. As rochas de urzela, um valioso líquen tintureiro, deixava pensar na exploração econômica das ilhas e levaram ao rápido povoamento. Depois, desastres naturais, ataques de piratas e superpopulação e mudança do clima levaram à pobreza: os casais passariam ao imenso e “despovoado” Brasil. Um aventureiro chamado Simão Estácio da Silveira, patrão de navio, tira proveito da situação com um panfleto dedicado aos pobres de Portugal (leia-se Açores), em 1618, lhes prometendo o paraíso no Maranhão... Desamparados e famintos os pobres de Portugal roubaram as terras dos índios e os escravizaram. O Maranhão era terra do Bom Selvagem tupinambá, a resposta foi duríssima (uma centena de “portugueses” massacrados pelos índios) e a represália genocida não deixou margem a dúvidas do que viria mais tarde ainda
sábado, 8 de maio de 2010
SAUDADES DA TERRA: conflito, colonialismo e devastação na Amazônia [2]
A primitiva saudade
A primeira de nossas saudades é o demônio da consciência, filha do Inconsciente (este mundo sem fundo). Sentimento do vasto mundo sem solução do poeta Carlos Drummond de Andrade. Melancólica lembrança das muitas infâncias perdidas da Humanidade. Pressentimento de perdição do planeta, para sempre... Despertar do indivíduo que se torna consciente de ser singular e coletivo ao mesmo tempo.
Esse angustiado mensageiro de “deuses” ou profeta do caos, poeta revolucionário, pensador iluminado ou louco se tornará estranho e odiado na própria terra. Nós nunca saberemos, exatamente, como foi a vida no berço da humanidade tal como ela foi de verdade. Só a poderosa imaginação criadora pintará um pálido cenário, que se perde entre brumas, para evocar os começos do mundo, quando estrelas, plantas, homens e animais pertenceram a uma única família.
O fundo mágico e terceira margem do rio onde o bicho-homem veio à tona antes que ele tivesse fala para se comunicar com os outros e se converter pelo verbo em verdadeiro humano. O primitivo “deus criança” sentia ânsia criadora como o homem moderno inseparável de sua própria sombra. O que levou os primeiros coletores e caçadores errantes a gerar rudimentos do espírito rabiscando sua sagrada passagem na pedra virgem de cavernas com pinturas rupestres retratando natureza virgem e visões de outros mundos.
Saudade: o parto da palavra tinha que ser em Portugal
Nenhum povo teve mais consideração pelo sentimento de saudade como o português. E tanto fez por merecer que, na virada do século XX, o Saudosismo veio à luz como um movimento seminal... “A saudade na cultura portuguesa é patrimônio universal inigualável, cuja linguagem musical é o Fado: uma catedral virtual revestida de saudade cósmica que dá alma à natureza. Saudade é– materialização do espírito. Ou espiritualização da matéria, com o poeta Fernando Pessoa a exaltar o sebastianismo. A obra antropoética de Pessoa faz da verdade uma máscara brilhante que oculta uma metáfora e cada máscara que ele faz é um jogo onde a verdade se oculta. O poeta é um fingidor que leva a saudade a extremos mágicos para declarar que os saudosistas são arquitetos de civilização futura, que o cristianismo libertado de seus fantasmas corre livre com o menino deus, que há em cada homem, para ir além da fronteira do panteísmo em busca de um sentido original à vida resgatada do absurdo.
Dessa saudade congênita dos nautas lusíadas, o poeta propõe uma odisseia existencial em busca de uma Índia nova– que não existe em terras e mares descobertos: nisto, sem Pessoa desconfiar um til, sua lírica honra a desconhecida demanda do Bom Selvagem na saga mítica da “Terra sem mal”. As naus da frota poética são construídas da mesma matéria com que os sonhos são feitos. Maravilha e paradoxo! Por necessidade e acaso, naves lusas vindas do mar Oceano transportaram (em contrabando invisível a olhos catequistas) o mito selvagem rio acima... A língua de Camões, imperadora no “rio Babel”, leva no retorno da terra dos tapuias as esperanças de Portugal e mais povos de todas diásporas para além mar.
bravos não fogem nem buscam a Morte, mas amam a vida sobretudo.
Apesar da carreira que levamos e tão longe que se possa ir, sempre voltamos ao ponto de partida transformados em heróis: cada um a seu modo, secretamente, possui uma Ítaca onde Penélope espera pelo formidável Ulisses que imaginamos ser, prontos a refazer a lenda e revitalizar a antiga metáfora. Na pressa moderna, nós não nos damos conta do enormíssimo genocídio que praticamos em guerra permanente contra “inimigos” fatais, em meio à multidão de deuses mortos e heróis em decomposição...
A vida passa em ondas na esteira dos cometas de volta ao pó das origens: todavia, tudo que foi um dia será outra coisa na eterna maré até se extinguir a grande combustão cósmica para dar lugar ao obscuro caos que regenera a dor de tantos nascimentos, sofrimentos, gozos e sucessivas mortes. Talvez, sem nenhum proposito como a vaidade humana gostaria que fosse a fim de compensar sua insuportável pequenez.
O radioso e maravilhoso Sol – velho deus ou deusa criadora dos viventes, Guaracy dos povos tupis – que iluminou o grande palco da comédia humana implodirá para virar um corpo opaco num novo céu escuro, frio e indiferente a esta e outras histórias ribeirinhas. Não importa a hora nem a forma que terá o fim do mundo no contínuo vir a ser das coisas. O que importa é saber viver e prolongar a vida enquanto há tempo... Tudo está atado a tudo. A abelha coleta néctar da florada guiada por raios infra-vermelhos e faz mel na colmeia, milhões de células renováveis no organismo complexo da vaca preparam leite que será queijo na mesa do rico pelas mãos calejadas do ordenhador e do artesão; o rio soturno traz cardumes à rede de pescador que dá de comer ao pobre...
Só este periclitante “eu”, como uma taquara pensante no meio da floresta agreste, é capaz de observar e compreender os outros. Achar conexões entre si mesmo e os mais. Descobrir diversas passagens entre mundos diferentes e distinguir a realidade do sonho. Um ser singular, dotado de razão e consciência, que, timidamente, assinala sua efêmera existência como um breve sopro do infinito movimento de energia da matéria eterna. O ser criado para passar e perecer na evolução das espécies em contínua adaptação a tudo e a todos, sempre em risco de extinção...
Mas na marcha para o inevitável, enquanto pode, o mortal canta e urde sua semente desafiando a morte como o guerreiro antropófago luta com o inimigo certo de que um dos dois há de conservar a chama viva e honrar as armas e o nome do herói morto em combate. Claro, a vida é luta renhida, viver é lutar... O terreiro e a comunidade por testemunha do sangue e da carne da vítima sagrada compartilhados no rito da eucaristia bárbara. Mais tarde, a evolução social simbolizada na missa dos cabocos em demanda não mais da mítica “Terra sem mal” buscada por seus ancestrais, mas sim da santa madre civilização. Um rito de passagem para outras renascenças e ressurreições ao longo de histórias futuras...
O velho drama de Sísifo escravo do mito acorrentado ao rito do Progresso: a arte imita a vida e a vida imita a arte... Toda aventura, por ridícula que pareça, como ir e vir da feira com mãos abanando, é uma odisseia no seio da cósmica Odisseia. Voltamos, de qualquer maneira, a velha casa da infância onde ensaiamos os primeiros passos. Ao retornar já não somos os mesmos exilados de outrora nem a casa será a mesma: e, no entanto, algo permanece.
Uma vez quando jovem, num sonho, me vi regressando a uma terra distante cercada de florestas. Havia no lugar um sítio com larga maloca silenciosa, de aspecto antigo, senti com se ali algum dia tivesse sido meu lar. Ficava numa ilha grande à beira de um rio tranquilo, por onde índios subiam o curso vagaroso em canoas a remo. Tão nítida imagem que eu podia ver gotejar a água da pá do remo do nativo mais próximo, este não se admirava de minha presença ali como se talvez eu fosse um deles. Havia paz na paisagem onírica. Eu nunca experimentei felicidade igual na vida real. Pena que despertei e não mergulhei de vez naquele eterno rio... Muito depois li depoimento de um índio processado pelo Santo Ofício (cf. Ronaldo Vainfas, “A heresia dos índios”) pelo crime de imitar Jesus Cristo para fundar igreja dissidente da santa Religião. Dizia o herege ao inquisidor: “Deus criou o homem para dormir e sonhar”. O sonho pois é a meta superior da vida dos viventes, terra de igualdade sem limites.
Não me espanta agora o fato de tantos pobres de espírito e deserdados de sonhos do paraíso selvagem buscar na alucinação das drogas a imaginação prazerosa que falta no mundo da realidade.
Freud explica? Talvez sim. Mas eu acho que será isto talvez a “saudade” do paraíso perdido em diversas diásporas: da Origem à evolução das espécies. Afinal, acredito, a Natureza sonha! É da sua natureza sonhar que é Deus e Homem ao mesmo tempo.
Às favas a “imparcial” razão! Quando se trata de coletiva e solidariamente buscar a justa felicidade de todos e de cada um (isto não exclui a boa governança natural na qual, na medida do razoável, humanos comem carne de vaca e vermes comem gente). Por isto a humanidade, filha da animalidade, inventa utopias. Que são como caminhos para realizar sonhos compartilhados. Todavia, é o indivíduo naturalizado e socializado nos lugares concretos do mundo real que dá razão aos sonhos mais felizes que muitos guardamos no coração desde a infância. Concordo com Agostinho da Silva, filósofo sebastiano sobre ser a criança imperador da utopia do “quinto império”. Este reino messiânico esperado na terra há de vir ao dia em que os adultos nunca matarem a criança que eles foram uma vez... E se a felicidade é o reino da infância, não faz sentido gastar tempo e padecer para transformar meninas e meninos alegres e felizes em gente grande idiota e infeliz. Não deveríamos reclamar por estar sempre a ir e voltar do fim aos começos do mundo: cada viagem nunca é igual a outra (a cabo da História, Vico e Marx ficariam em margens opostas? Acho que não, tudo se confunde na terceira margem do rio das amazonas).
"Toda a alegria silenciosa de Sísifo está aí. Seu destino lhe pertence. Seu rochedo é sua questão. Da mesma forma o homem absurdo, quando contempla o seu tormento, faz calar todos os ídolos.
No universo subitamente restituído ao seu silêncio, elevam-se as mil pequenas vozes maravilhadas da terra. Apelos inconscientes e secretos, convites de todos os rostos, são o reverso necessário e o preço da vitória.
Não existe sol sem sombra, e é preciso conhecer a noite. O homem absurdo diz sim e seu esforço não acaba mais. Se há um destino pessoal, não há nenhuma destinação superior ou, pelo menos, só existe uma, que ele julga fatal e desprezível.
No mais, ele se tem como senhor de seus dias. Nesse instante sutil em que o homem se volta sobre sua vida, Sísifo, vindo de novo para seu rochedo, contempla essa seqüência de atos sem nexo que se torna seu destino, criado por ele, unificado sob o olhar de sua memória e em breve selado por sua morte.
Assim, convencido da origem toda humana de tudo o que é humano, cego que quer ver e que sabe que a noite não tem fim, ele está sempre caminhando. O rochedo continua a rolar."
(de O Mito de Sísifo - Albert Camus)
A primeira de nossas saudades é o demônio da consciência, filha do Inconsciente (este mundo sem fundo). Sentimento do vasto mundo sem solução do poeta Carlos Drummond de Andrade. Melancólica lembrança das muitas infâncias perdidas da Humanidade. Pressentimento de perdição do planeta, para sempre... Despertar do indivíduo que se torna consciente de ser singular e coletivo ao mesmo tempo.
Esse angustiado mensageiro de “deuses” ou profeta do caos, poeta revolucionário, pensador iluminado ou louco se tornará estranho e odiado na própria terra. Nós nunca saberemos, exatamente, como foi a vida no berço da humanidade tal como ela foi de verdade. Só a poderosa imaginação criadora pintará um pálido cenário, que se perde entre brumas, para evocar os começos do mundo, quando estrelas, plantas, homens e animais pertenceram a uma única família.
O fundo mágico e terceira margem do rio onde o bicho-homem veio à tona antes que ele tivesse fala para se comunicar com os outros e se converter pelo verbo em verdadeiro humano. O primitivo “deus criança” sentia ânsia criadora como o homem moderno inseparável de sua própria sombra. O que levou os primeiros coletores e caçadores errantes a gerar rudimentos do espírito rabiscando sua sagrada passagem na pedra virgem de cavernas com pinturas rupestres retratando natureza virgem e visões de outros mundos.
Saudade: o parto da palavra tinha que ser em Portugal
Nenhum povo teve mais consideração pelo sentimento de saudade como o português. E tanto fez por merecer que, na virada do século XX, o Saudosismo veio à luz como um movimento seminal... “A saudade na cultura portuguesa é patrimônio universal inigualável, cuja linguagem musical é o Fado: uma catedral virtual revestida de saudade cósmica que dá alma à natureza. Saudade é– materialização do espírito. Ou espiritualização da matéria, com o poeta Fernando Pessoa a exaltar o sebastianismo. A obra antropoética de Pessoa faz da verdade uma máscara brilhante que oculta uma metáfora e cada máscara que ele faz é um jogo onde a verdade se oculta. O poeta é um fingidor que leva a saudade a extremos mágicos para declarar que os saudosistas são arquitetos de civilização futura, que o cristianismo libertado de seus fantasmas corre livre com o menino deus, que há em cada homem, para ir além da fronteira do panteísmo em busca de um sentido original à vida resgatada do absurdo.
Dessa saudade congênita dos nautas lusíadas, o poeta propõe uma odisseia existencial em busca de uma Índia nova– que não existe em terras e mares descobertos: nisto, sem Pessoa desconfiar um til, sua lírica honra a desconhecida demanda do Bom Selvagem na saga mítica da “Terra sem mal”. As naus da frota poética são construídas da mesma matéria com que os sonhos são feitos. Maravilha e paradoxo! Por necessidade e acaso, naves lusas vindas do mar Oceano transportaram (em contrabando invisível a olhos catequistas) o mito selvagem rio acima... A língua de Camões, imperadora no “rio Babel”, leva no retorno da terra dos tapuias as esperanças de Portugal e mais povos de todas diásporas para além mar.
bravos não fogem nem buscam a Morte, mas amam a vida sobretudo.
Apesar da carreira que levamos e tão longe que se possa ir, sempre voltamos ao ponto de partida transformados em heróis: cada um a seu modo, secretamente, possui uma Ítaca onde Penélope espera pelo formidável Ulisses que imaginamos ser, prontos a refazer a lenda e revitalizar a antiga metáfora. Na pressa moderna, nós não nos damos conta do enormíssimo genocídio que praticamos em guerra permanente contra “inimigos” fatais, em meio à multidão de deuses mortos e heróis em decomposição...
A vida passa em ondas na esteira dos cometas de volta ao pó das origens: todavia, tudo que foi um dia será outra coisa na eterna maré até se extinguir a grande combustão cósmica para dar lugar ao obscuro caos que regenera a dor de tantos nascimentos, sofrimentos, gozos e sucessivas mortes. Talvez, sem nenhum proposito como a vaidade humana gostaria que fosse a fim de compensar sua insuportável pequenez.
O radioso e maravilhoso Sol – velho deus ou deusa criadora dos viventes, Guaracy dos povos tupis – que iluminou o grande palco da comédia humana implodirá para virar um corpo opaco num novo céu escuro, frio e indiferente a esta e outras histórias ribeirinhas. Não importa a hora nem a forma que terá o fim do mundo no contínuo vir a ser das coisas. O que importa é saber viver e prolongar a vida enquanto há tempo... Tudo está atado a tudo. A abelha coleta néctar da florada guiada por raios infra-vermelhos e faz mel na colmeia, milhões de células renováveis no organismo complexo da vaca preparam leite que será queijo na mesa do rico pelas mãos calejadas do ordenhador e do artesão; o rio soturno traz cardumes à rede de pescador que dá de comer ao pobre...
Só este periclitante “eu”, como uma taquara pensante no meio da floresta agreste, é capaz de observar e compreender os outros. Achar conexões entre si mesmo e os mais. Descobrir diversas passagens entre mundos diferentes e distinguir a realidade do sonho. Um ser singular, dotado de razão e consciência, que, timidamente, assinala sua efêmera existência como um breve sopro do infinito movimento de energia da matéria eterna. O ser criado para passar e perecer na evolução das espécies em contínua adaptação a tudo e a todos, sempre em risco de extinção...
Mas na marcha para o inevitável, enquanto pode, o mortal canta e urde sua semente desafiando a morte como o guerreiro antropófago luta com o inimigo certo de que um dos dois há de conservar a chama viva e honrar as armas e o nome do herói morto em combate. Claro, a vida é luta renhida, viver é lutar... O terreiro e a comunidade por testemunha do sangue e da carne da vítima sagrada compartilhados no rito da eucaristia bárbara. Mais tarde, a evolução social simbolizada na missa dos cabocos em demanda não mais da mítica “Terra sem mal” buscada por seus ancestrais, mas sim da santa madre civilização. Um rito de passagem para outras renascenças e ressurreições ao longo de histórias futuras...
O velho drama de Sísifo escravo do mito acorrentado ao rito do Progresso: a arte imita a vida e a vida imita a arte... Toda aventura, por ridícula que pareça, como ir e vir da feira com mãos abanando, é uma odisseia no seio da cósmica Odisseia. Voltamos, de qualquer maneira, a velha casa da infância onde ensaiamos os primeiros passos. Ao retornar já não somos os mesmos exilados de outrora nem a casa será a mesma: e, no entanto, algo permanece.
Uma vez quando jovem, num sonho, me vi regressando a uma terra distante cercada de florestas. Havia no lugar um sítio com larga maloca silenciosa, de aspecto antigo, senti com se ali algum dia tivesse sido meu lar. Ficava numa ilha grande à beira de um rio tranquilo, por onde índios subiam o curso vagaroso em canoas a remo. Tão nítida imagem que eu podia ver gotejar a água da pá do remo do nativo mais próximo, este não se admirava de minha presença ali como se talvez eu fosse um deles. Havia paz na paisagem onírica. Eu nunca experimentei felicidade igual na vida real. Pena que despertei e não mergulhei de vez naquele eterno rio... Muito depois li depoimento de um índio processado pelo Santo Ofício (cf. Ronaldo Vainfas, “A heresia dos índios”) pelo crime de imitar Jesus Cristo para fundar igreja dissidente da santa Religião. Dizia o herege ao inquisidor: “Deus criou o homem para dormir e sonhar”. O sonho pois é a meta superior da vida dos viventes, terra de igualdade sem limites.
Não me espanta agora o fato de tantos pobres de espírito e deserdados de sonhos do paraíso selvagem buscar na alucinação das drogas a imaginação prazerosa que falta no mundo da realidade.
Freud explica? Talvez sim. Mas eu acho que será isto talvez a “saudade” do paraíso perdido em diversas diásporas: da Origem à evolução das espécies. Afinal, acredito, a Natureza sonha! É da sua natureza sonhar que é Deus e Homem ao mesmo tempo.
Às favas a “imparcial” razão! Quando se trata de coletiva e solidariamente buscar a justa felicidade de todos e de cada um (isto não exclui a boa governança natural na qual, na medida do razoável, humanos comem carne de vaca e vermes comem gente). Por isto a humanidade, filha da animalidade, inventa utopias. Que são como caminhos para realizar sonhos compartilhados. Todavia, é o indivíduo naturalizado e socializado nos lugares concretos do mundo real que dá razão aos sonhos mais felizes que muitos guardamos no coração desde a infância. Concordo com Agostinho da Silva, filósofo sebastiano sobre ser a criança imperador da utopia do “quinto império”. Este reino messiânico esperado na terra há de vir ao dia em que os adultos nunca matarem a criança que eles foram uma vez... E se a felicidade é o reino da infância, não faz sentido gastar tempo e padecer para transformar meninas e meninos alegres e felizes em gente grande idiota e infeliz. Não deveríamos reclamar por estar sempre a ir e voltar do fim aos começos do mundo: cada viagem nunca é igual a outra (a cabo da História, Vico e Marx ficariam em margens opostas? Acho que não, tudo se confunde na terceira margem do rio das amazonas).
"Toda a alegria silenciosa de Sísifo está aí. Seu destino lhe pertence. Seu rochedo é sua questão. Da mesma forma o homem absurdo, quando contempla o seu tormento, faz calar todos os ídolos.
No universo subitamente restituído ao seu silêncio, elevam-se as mil pequenas vozes maravilhadas da terra. Apelos inconscientes e secretos, convites de todos os rostos, são o reverso necessário e o preço da vitória.
Não existe sol sem sombra, e é preciso conhecer a noite. O homem absurdo diz sim e seu esforço não acaba mais. Se há um destino pessoal, não há nenhuma destinação superior ou, pelo menos, só existe uma, que ele julga fatal e desprezível.
No mais, ele se tem como senhor de seus dias. Nesse instante sutil em que o homem se volta sobre sua vida, Sísifo, vindo de novo para seu rochedo, contempla essa seqüência de atos sem nexo que se torna seu destino, criado por ele, unificado sob o olhar de sua memória e em breve selado por sua morte.
Assim, convencido da origem toda humana de tudo o que é humano, cego que quer ver e que sabe que a noite não tem fim, ele está sempre caminhando. O rochedo continua a rolar."
(de O Mito de Sísifo - Albert Camus)
Assinar:
Postagens (Atom)
